Arquitetura afro-brasileira ganha exposição inédita no país com 52 obras em estreia no MAFRO, em Salvador

Foto: Zumvi Arquivo Afro Fotográfico - crédito obrigatório

A diáspora africana também moldou o Brasil, construindo territórios, transmitindo saberes entre gerações e imprimindo sua presença nos modos de habitar e nas expressões culturais que atravessam os séculos. Ainda pouco reconhecida pela história oficial da arquitetura, essa herança ganha protagonismo em “Arquitetura Afro-Brasileira: Herança, Expressão e Continuidade”, exposição inédita dedicada ao tema no país. Gratuita, a mostra abre no dia 13 de novembro (sexta-feira), no Museu Afro-Brasileiro da Universidade Federal da Bahia (MAFRO-UFBA), no Pelourinho, em Salvador, em sintonia com o Novembro Negro, e fica em cartaz até março de 2027.

Realizada pelo Cambará – Instituto de Fomento à Arquitetura Afro-Brasileira, a exposição reúne 52 obras entre documentos históricos, fotografias, filmes, pinturas, esculturas, colagens e outras linguagens artísticas para evidenciar como as comunidades negras produziram e seguem transformando a arquitetura brasileira. A iniciativa, cuja mostra é assinada pelos curadores Gabriela de Matos, vencedora do Leão de Ouro de Melhor Participação Nacional na Bienal Internacional de Arquitetura de Veneza (2023); e Raphael Bento, integrante do comitê curatorial da próxima edição da Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo em 2027, propõe uma nova perspectiva sobre a memória, o patrimônio e a identidade arquitetônica do país. 

A exposição também questiona uma narrativa predominante na história da arquitetura nacional, que costuma colocar o modernismo como sua principal e, muitas vezes, quase única expressão. Ao trazer para o centro da discussão as contribuições negras e, em determinadas obras, indígenas, a mostra reivindica o reconhecimento, a preservação e a investigação de outras tradições arquitetônicas. 

É um convite aberto ao público para ampliar o repertório sobre a produção do espaço no Brasil e evidenciar como essas práticas integram a cultura arquitetônica do país, mesmo quando permanecem pouco reconhecidas pelas instituições e pela historiografia.

“Mais do que apresentar uma coleção de obras, a exposição propõe uma revisão de perspectiva: a arquitetura afro-brasileira não começa apenas quando pessoas negras ingressam nas universidades ou passam a atuar formalmente na profissão. Ela também está nos quilombos, nos terreiros, nas formas coletivas de organização do território, nas técnicas tradicionais e nas soluções criadas para responder às necessidades de diferentes comunidades. São conhecimentos transmitidos, transformados e reinventados ao longo do tempo, que conectam heranças africanas, experiências da diáspora e a construção de expressões próprias em solo brasileiro. Nesse sentido, as artes visuais são a ponte para mostrarmos isso”, destacam os curadores. 

Território de memória e continuidade

A escolha de Salvador para a estreia está diretamente relacionada à importância da cidade para a história negra brasileira e para as formas de ocupação e construção dos espaços pelas comunidades negras. A capital baiana concentra referências fundamentais dessa trajetória, entre elas os terreiros de candomblé, que articulam arquitetura, cultura, espiritualidade, organização comunitária e relação com o território.

Um dos marcos dessa história é o Terreiro da Casa Branca, cuja proteção patrimonial, na década de 1980, representou uma mudança importante no reconhecimento de referências negras na preservação cultural brasileira. A exposição incorpora essa discussão por meio de registros históricos e de uma planta do terreiro, contribuindo para refletir sobre os critérios que definem o que é reconhecido como patrimônio e arquitetura no país.

Artista e obras

A mostra reúne 52 obras de artistas, arquitetos, pesquisadores e instituições de diferentes regiões do Brasil e do exterior. Entre os destaques, está a instalação “Arquitetura da Olaria Brasileira – Modelagens Afro e Indígena” de J. Melo, artista visual, arquiteto e pesquisador pernambucano de Tracunhaém. Desenvolvida especialmente para a exposição, a obra tem as cerâmicas como elemento central que dão luz às mãos negras e originárias neste ofício tão basilar para muito do que foi – e é – construído pelo povo do Brasil. Também, duas pinturas de Zé di Cabeça, fundador do Acervo da Laje, retratam a região de Plataforma, em Salvador, trazendo para a mostra outras perspectivas sobre a memória e os territórios negros da cidade.

O Zumví Arquivo Afro Fotográfico, referência na preservação da memória visual negra, participa com seis fotografias de seu acervo, que retratam a comunidade dos Alagados, conhecida pelas palafitas. A exposição apresenta ainda uma peça gráfica do arquiteto e pesquisador João Carlos Ferreira, dedicada à presença das mulheres negras na arquitetura brasileira e às questões de representatividade e visibilidade profissional.

O conjunto inclui também trabalhos de Gê Viana, maré de matos, Mika Esse e Simone Santos, além de obras e contribuições dos acervos do MAFRO e do Ilê Aiyê. A participação da arquiteta, pesquisadora e designer sul-africana Khensani Jurczok-de Klerk amplia o diálogo da exposição com outras experiências da diáspora africana.

“Arquitetura Afro-Brasileira: Herança, Expressão e Continuidade” tem suas obras distribuídas em três núcleos — “Outras Formas de Compreender”, “Outras Formas de Subverter” e “Outras Formas de Fazer” —, que articulam referências históricas, questionamentos às narrativas tradicionais da arquitetura e práticas contemporâneas de criação e ocupação dos territórios. A exposição conta com apoio do Rearc Institute e tem obras cedidas pelo Cultne. 

Sobre os curadores

Gabriela de Matos integrou a curadoria da participação brasileira premiada com o Leão de Ouro de Melhor Participação Nacional na Bienal de Arquitetura de Veneza, em 2023, reconhecimento internacional que reforça a relevância de sua trajetória no debate sobre arquitetura, raça e representação. Fundadora do Projeto Arquitetas Negras (2018), foi nomeada Arquiteta do Ano (2020) pelo IAB RJ e atuou como co-presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil – departamento de São Paulo. Sua pesquisa explora a genealogia da Arquitetura Afro-brasileira e desenvolve estruturas analíticas para entender a arquitetura afro-brasileira contemporânea.

Raphael Bento é curador, pesquisador, jornalista e filósofo. Co-curou a exposição “Águas Abertas”, que questionou a relação das cidades com os rios urbanos nas margens do Rio Pinheiros na capital paulista (2025); a convite do Estúdio Módulo, compôs a equipe de consultoria em artes visuais da proposta escolhida para assinar o novo edifício do Itaú Cultural (2026); e integra o comitê curatorial de “Cultura Manifesta”, a 15ª Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo (2026/2027).