O poder de ficar só: como a solitude fortalece o cérebro e as emoções

Neurocientista e psicanalista Ana Chaves explica como a solitude fortalece o cérebro, reduz o estresse e amplia a clareza emocional

Aprender a estar só pode ser um dos maiores desafios da vida moderna e também um dos mais transformadores. É o que defende a neurocientista e psicanalista Ana Chaves, que há mais de uma década estuda os efeitos da solitude sobre o cérebro e o comportamento humano. Para a especialista, saber apreciar a própria companhia é um sinal de maturidade emocional e uma poderosa ferramenta de crescimento pessoal.

“Quando conseguimos desfrutar dos nossos próprios momentos, sem precisar de distrações externas, cultivamos clareza mental e fortalecemos nossa identidade. É na relação com nós mesmos que se definem os alicerces de todas as outras relações”, afirma Ana.

A ciência tem reforçado essa visão. Um estudo conduzido pela University of Reading, em 2023, acompanhou 178 adultos por três semanas e constatou que os dias com mais momentos de solitude voluntária estavam associados a menores níveis de estresse e maior sensação de autonomia. Já uma pesquisa publicada pela Oregon State University, em 2024, mostrou que pessoas que passam tempo sozinhas de forma equilibrada, sem se isolar completamente, experimentam maior restauração de energia e bem-estar emocional.

No campo da neurociência, uma revisão recente publicada na PubMed (“Silence between words: Is solitude important for relatedness?”, 2024) revelou que o tempo em solitude ativa áreas cerebrais ligadas à criatividade, autorreflexão e clareza cognitiva, especialmente a chamada default mode network, rede associada aos processos mentais mais introspectivos.

Esses achados ajudam a diferenciar três conceitos frequentemente confundidos: solidão, isolamento e solitude. A solidão é marcada pela ausência emocional; o isolamento, por um afastamento forçado; já a solitude é uma escolha consciente de estar consigo mesmo — um estado de presença plena e autocompaixão. “A solitude não é fuga, é encontro. Quando nos conhecemos de verdade, nossas relações se tornam mais leves e autênticas”, pontua Ana Chaves.

A especialista recomenda pequenos hábitos diários que fortalecem essa autonomia emocional: caminhar sem celular, meditar, escrever sobre o que sente ou simplesmente observar o ambiente em silêncio. “Esses rituais silenciosos despertam a criatividade e reduzem a dependência emocional do outro como fonte de validação”, completa.

Foto: Freepik