Em sua quinta participação consecutiva na CASACOR Bahia, o arquiteto Walter Schimmelpfeng apresenta o living “Dois Jeitos, Um Querer”, um ambiente que propõe um diálogo entre o clássico e o contemporâneo, a memória e a inovação. Inspirado na ideia de que diferentes perspectivas podem compartilhar um mesmo propósito, o projeto une sofisticação, sustentabilidade e sensibilidade para criar uma experiência que vai além da estética. Nesta entrevista, Walter fala sobre o conceito do espaço, a inspiração por trás do nome, os desafios do processo criativo e a importância de projetar ambientes que despertem pertencimento e conexão.
1. O que representa o nome “Dois Jeitos, Um Querer” e como ele se traduz na experiência de quem visita o ambiente?
Para além da referência à canção Eduardo e Mônica, que celebra o encontro de duas pessoas muito diferentes, mas movidas por um mesmo desejo, o nome “Dois Jeitos, Um Querer” nasceu de uma reflexão prática: como se projeta para alguém que não existe?
Na arquitetura, normalmente temos um cliente. Desta vez, tínhamos um personagem. Decidimos imaginar a CASACOR como uma pessoa sofisticada, inquieta, culta, sensorial, alguém com repertório, memória e uma capacidade muito própria de transformar escolhas em discurso.
Ela não era apenas uma mostra, era uma presença.
Depois percebemos que a personagem precisava encontrar outra. E essa outra já existia: era a essência da Andrade Schimmelpfeng — um olhar mais jovem, transformador, que acredita na inovação com propósito, na sustentabilidade e na arquitetura como instrumento real de impacto.
Quando essas duas personas se encontraram, começaram a conversar. Então entendemos que tinham jeitos diferentes de enxergar o mundo, mas compartilhavam o mesmo desejo: criar experiências capazes de fazer as pessoas se reconhecerem naquele espaço.
Foi desse encontro que nasceu “Dois Jeitos, Um Querer”
O clássico e o contemporâneo, a memória e a inovação, a contemplação e a convivência. Mas, acima de tudo, traduz uma convicção que está no centro do projeto: as diferenças não precisam separar; quando encontram um propósito comum, elas criam algo maior do que cada uma seria capaz de construir sozinha.
2. Você cita uma inspiração sutil na música “Eduardo e Mônica”. Em que momento percebeu que essa narrativa poderia dialogar com a arquitetura?
Sutil porque Eduardo e Mônica não foram o começo dessa história, mas a confirmação de que ela já existia.
Quando começamos a construir o conceito do ambiente, ainda não estávamos pensando em uma música. Estávamos pensando em personalidades.
De um lado, a CASACOR como uma persona com repertório, memória, sofisticação e uma relação profunda com a arte e a cultura. Do outro, a Andrade Schimmelpfeng, com um olhar mais contemporâneo, inquieto e transformador.
E percebemos algo muito bonito: essa relação não acontecia porque elas eram iguais. Acontecia justamente porque eram diferentes.
Foi quando a música apareceu.
“Eduardo e Mônica” sempre nos encantou porque é não é sobre duas pessoas que se encontram por terem as mesmas referências. Pelo contrário: eles vêm de universos distintos, mas existe algo maior que conecta os dois.
Essa é uma ideia muito presente na arquitetura. Os espaços mais interessantes também nascem de encontros improváveis: o antigo e o novo, a razão e a emoção, a permanência e a transformação.
Por isso, a música não foi uma reprodução. Ela foi uma lente poética para enxergar o projeto.
Existe um verso que traduz muito essa experiência: “Quem um dia irá dizer que existe razão nas coisas feitas pelo coração?”
A arquitetura também vive dessa pergunta. Nem tudo que acolhe pode ser explicado. Algumas escolhas acontecem porque carregam significado, porque despertam uma sensação, porque fazem alguém sentir que aquele lugar poderia ser seu.
3. Sustentabilidade é um dos pilares do ambiente. Como equilibrar responsabilidade ambiental, sofisticação e estética sem abrir mão de nenhum desses aspectos?
A sustentabilidade não foi uma decisão tomada para este projeto. Ela faz parte da personalidade da Andrade Schimmelpfeng antes do projeto existir.
Quando imaginamos a persona do escritório, entendemos que nenhum projeto pode ser construído apenas pela estética. Precisa carregar valores.
A sustentabilidade talvez seja uma das principais características da Andrade Schimmelpfeng: uma forma de pensar, projetar e se relacionar com o mundo.
Por isso, ela não aparece no ambiente como um elemento isolado ou como uma mensagem aplicada depois. Ela está na essência das escolhas.
Está no revestimento desenvolvido a partir de cacos de vidro e resíduos de telha, na porta produzida com plástico reutilizado, na madeira de reflorestamento, na fonte criada com 1000 colheres de chá reaproveitadas e em uma execução pensada para reduzir impactos ambientais. Está no fato de termos um ambiente 100% carbono zero, como é a casa onde moro e o nosso escritório.
Mas existe algo ainda mais importante: sustentabilidade também é permanência.
É criar algo que tenha significado suficiente para continuar fazendo sentido com o passar do tempo. Porque um projeto verdadeiramente sustentável não é apenas aquele que reduz impactos; é aquele que constrói valores.
E talvez seja justamente aí que as duas personas do ambiente se encontram. A CASACOR traz a memória e permanência. A Andrade Schimmelpfeng traz a transformação e a consciência do futuro!
Uma olha para aquilo que deve permanecer. Pensa no que precisa evoluir.
4. Em sua quinta participação consecutiva na CASACOR Bahia, o que mudou na sua maneira de projetar e quais aprendizados você leva para esta edição?
Talvez a maior transformação ao longo dessas cinco participações tenha sido perceber que, nesse caminho, nós também construímos uma identidade.
Cada CASACOR foi uma oportunidade de revelar uma camada diferente do escritório. No início, havia naturalmente o desejo de apresentar repertório, domínio técnico e uma linguagem própria. Com o passar dos anos, entendemos que mais importante do que mostrar aquilo que fazemos era revelar aquilo em que acreditamos.
A arquitetura amadurece quando deixa de buscar apenas reconhecimento e passa a buscar significado. Quando o projeto deixa de ser uma afirmação de quem somos e se torna uma ferramenta de conexão, de escuta e de criação de experiências.
Nesta edição, esse aprendizado se tornou ainda mais evidente, justamente porque não projetamos a partir de um cliente tradicional. O desafio foi compreender uma outra persona, interpretar desejos, criar um diálogo e encontrar um ponto de equilíbrio entre diferentes visões de mundo. Esse exercício reforçou uma convicção importante: a arquitetura não deve impor uma identidade, mas criar espaços onde diferentes identidades possam se reconhecer e existir.
Depois de cinco participações consecutivas, talvez o maior aprendizado seja entender que cada projeto transforma o espaço, mas também transforma quem projeta. A CASACOR nos ensinou a olhar com mais profundidade, a perguntar antes de responder e a perceber que um ambiente vai muito além daquilo que se vê — ele se revela principalmente naquilo que é capaz de fazer alguém sentir.
Essa é a experiência que levamos para esta edição: projetar menos sobre nós mesmos e mais sobre as pessoas, histórias, sensações e encontros que a arquitetura pode proporcionar. Para esta edição estamos levando o ineditismo de sempre, maturidade, experiência e, claro, gratidão.
5. Existe algum detalhe do ambiente que costuma passar despercebido pelo visitante, mas que tem um significado especial para você?
Os detalhes que mais gosto talvez sejam justamente aqueles que não pedem atenção: a manta sobre o sofá feita à mão por minha mãe, o móbile, a radiola e a chopeira sempre prontas pra alegrar as visitas, as fotos das viagens que contam tantas histórias…
Também existe uma delicadeza especial na fonte construída com 1000 colheres de chá reaproveitadas. Há algo muito simbólico em transformar um objeto cotidiano, presente em tantos momentos de encontro e conversa, em um elemento de contemplação.
Mas talvez o detalhe mais importante seja o próprio espaço entre as coisas.
A varanda, o “entre”, representa esse lugar onde as diferenças deixam de ser oposição e passam a ser composição. É onde as duas personas se encontram.
São esses pequenos gestos que fazem o ambiente ganhar camadas. Porque acreditamos que um espaço não é construído apenas pelo que aparece; ele também é construído pelo significado que permanece.
6. Se o visitante pudesse levar apenas uma sensação ao sair do Living Dois Jeitos, Um Querer, qual você gostaria que fosse?
Gostaria que saíssem com a sensação de ter encontrado um lugar.
Lugar de acolhimento, aconchego. Daqueles espaços em que, mesmo sendo a primeira vez, existe uma familiaridade difícil de explicar.
Pensamos em cada detalhe para construir essa sensação. A luz, os materiais, as texturas, a presença da natureza, o desenho do mobiliário, os objetos escolhidos e até os vazios entre os elementos foram pensados para criar uma atmosfera de permanência.
Porque acreditamos que a arquitetura mais potente não é aquela que apenas impressiona, mas que cria conexão.
A varanda traduz exatamente esse sentimento. Ela é o “entre” do projeto: o lugar onde diferentes personalidades deixam de ser contraste e passam a ser composição. Onde a memória encontra a inovação e a arquitetura encontra a natureza, onde a mente e o coração conseguem coexistir.
No fim, o que desejamos é que o visitante não saia apenas lembrando do espaço, mas da sensação que ele despertou.
Porque a casa nunca foi apenas sobre onde estamos, é sobre onde nos reconhecemos. É onde a mente repousa e o coração não se defende. É onde pertencemos












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