Quando dezembro pesa no coração

A psicóloga Nili Brito explica por que o fim de ano pode despertar tristeza, cobranças e a chamada “dezembrite”

YM: Por que o fim de ano costuma ser um período emocionalmente mais pesado para muitas pessoas, mesmo sendo associado à ideia de celebração e felicidade?

NB: O fim de ano carrega intensas reflexões e um simbolismo muito grande sobre o que foi, não foi e sobre o que poderia ter sido feito. É neste momento em que os pensamentos estão mais voltados para ciclos, encerramentos, perdas, (as simbólicas também) e expectativa.
Eu costumo associar àquele momento do “júri final”, em que prestamos contas à nós mesmos de tudo que foi realizado, que não foi feito e aquele pensamento à respeito do “se”. Porém, essa “prestação de contas” também está associada à um comparativo muito grande de conquistas, realizações e sucesso.
Para muitas pessoas, isso desperta sentimentos de frustração, luto, solidão e culpa, especialmente quando a realidade interna não corresponde à imagem de felicidade que socialmente se espera dessa época.
Um outro aspecto são as memórias afetivas que ressurgem com mais intensidade: ausências, perdas, relações rompidas e os próprios conflitos existentes nas relações familiares. Apesar de ser um período festivo e comemorativo, para alguns é um tempo de encarar com o que ainda dói.

YM: A chamada “dezembrite” tem sido cada vez mais comentada. Como a psicologia explica esse sentimento de tristeza, melancolia ou sobrecarga que surge nessa época?

NB: A “dezembrite” pode ser definida como um fenômeno emocional, psicologicamente ela surge a partir da presença de diversos fatores: autocobrança excessiva, encerramento ou rompimento de ciclos, sobrecarga emocional, expectativas irreais sobre o jeito “certo “ de como deveríamos nos sentir.
Neste mês a sobrecarga emocional aumenta ainda mais quanto a cobrança de “ter de dar conta de tudo”, finalizar metas e querer encerrar todas as pendências. Momento este, que o cansaço emocional aparece em forma de tristeza, irritabilidade, apatia ou vontade de se isolar.
Mais do que nunca a importância de se escutar e prestar atenção ao que o emocional está querendo dizer.

YM: De que forma as comparações — especialmente nas redes sociais — impactam a saúde emocional das pessoas no fim do ano?

NB: As redes sociais intensificam a ideia de um “ideal” de famílias unidas, relações sem conflitos e felicidade plena. No momento em que a sensibilidade está mais aflorada, a “realidade das redes sociais” pode gerar ainda mais gatilhos de comparação, frustração e autojulgamento.
Muitas pessoas passam a sentir que fracassaram, que estão “atrasadas na vida” e a constante sensação de insuficiência quando, na verdade, cada um passa por processos diferentes, em tempos diferentes e respeitar o seu próprio tempo ajuda ainda mais no processo.

YM: Quais atitudes práticas ajudam a tornar esse período mais leve emocionalmente, sem negar sentimentos difíceis ou forçar um clima de felicidade?

NB: Um dos passos que acredito ser mais importante, é ser honesto e genuíno consigo mesmo, entender e reconhecer que nem sempre estaremos com “aquela vibe” de celebração e felicidade que o mês de dezembro carrega.
Outras atitudes podem colaborar também, como diminuir expectativas irreais; Se permitir a estar em ambientes que realmente te proporcionam bem-estar; Olhar para si mesmo(a) com mais gentileza e leveza;
Viver o ano da forma que mais faz sentido para si mesmo.

YM: Em que momento o sofrimento emocional deixa de ser algo esperado do período e passa a exigir atenção ou apoio profissional?

NB: Quando o sofrimento começa a impactar de forma negativa na vida da pessoa, interferindo de forma significativa nos hábitos rotineiros como: dormir, se alimentar, se relacionar. Importante prestar atenção também à alguns sinais de alerta como: tristeza persistente, sensação constante de vazio, crises de ansiedade frequentes, isolamento intenso ou pensamentos de desvalorização à vida.
Reconhecer, pedir e aceitar ajuda é mais do que um gesto de coragem, é uma responsabilidade emocional consigo mesmo.
Se escute com mais atenção, se enxergue com mais delicadeza, se permita a sentir.