Gabriela Melzer & Ygor Landarin ocupam a Galatea Salvador com mostra inédita sobre memória, paisagem e imaginação 

Crédito: Rafael Salim

O que resta de um lugar quando ele é atravessado pela memória? Como a paisagem continua a se transformar quando passa a existir também no campo da imaginação? Essas questões atravessam A invenção do Paraíso: Gabriela Melzer & Ygor Landarin, exposição que coloca em diálogo, pela primeira vez, os dois artistas nos espaços principais da Galatea Salvador. A abertura acontece em 3 de julho, durante as celebrações

da Independência da Bahia, período em que a cidade revisita sua história e reafirma sua potência cultural. 

Tomando a ideia de paraíso como construção simbólica, provisóriae subjetiva, a mostra coloca em diálogo duas pesquisas que investigam as relações entre matéria e transformação. Embora partam de linguagens distintas, Melzer e Landarin compartilham o interesse por elementos do mundo visível, como formações geológicas, organismos marinhos, relevos, arquiteturas e vestígios materiais, que são continuamente reelaborados em suas obras. 

Gabriela Melzer dá continuidade à investigação que vem desenvolvendo nos últimos anos em torno da abstração, da cor e da percepção. Em suas pinturas, referências observadas na natureza e na paisagem construída são transformadas em composições marcadas por contornos orgânicos e pela construção de paisagens interiores. 

Parte das obras nasce da observação da arquitetura de Salvador e dos desgastes provocados pela ação do clima sobre suas superfícies. Em vez de representação direta, Melzer converte essas referências em estruturas pictóricas nas quais formas orgânicas, campos cromáticos e sistemas lineares coexistem em negociação constante. Linhas sinuosas atravessam áreas de cor organizadas por divisões modulares, produzindo composições que equilibram controle e improvisação, estabilidade e mudança. 

Suas pinturas são construídas por meio da sobreposição de sucessivas camadas de tinta, às quais se somam gestos realizados com bastões oleosos que registram movimentos e ritmos sobre a superfície. Em Desenhos (2026), série realizada com bastão de óleo sobre painel telado, Melzer intensifica a presença do desenho e aprofunda uma investigação voltada a aspectos que escapam à observação imediata. Linhas e campos de cor organizam-se em composições que convidam a uma observação prolongada. 

Sobre seu processo criativo, Gabriela Melzer declara: “Nas obras, o meu objetivo não é meramente representar o mundo, mas explorar essas brechas — lugares onde o físico e o não físico se tocam, criando uma realidade que sentimos, mas não vemos. Essa é uma busca por abrir espaços que todos podem acessar, mesmo que não estejam claramente delineados. Trata-se de nos permitir sentir além do que estamos acostumados, juntos, e encontrar uma maneira de dar forma ao que normalmente passaria despercebido.” 

Já Ygor Landarin apresenta obras que nascem de seu interesse pelos lugares que atravessam sua trajetória e pelos vestígios que permanecem neles. Bordado, escultura e materiais como areia, porcelana fria e cimento aparecem como ferramentas para investigar relações entre matéria, tempo e memória. Em muitos de seus trabalhos, referências arqueológicas, concheiros e sambaquis servem como ponto de partida.

Parte dessa produção foi desenvolvida para a exposição após uma temporada de pesquisa em Salvador, quando Landarin realizou coletas em praias da cidade e ampliou seu contato com referências locais. A obra de Juarez Paraíso torna-se referência central na construção de Paraízo (2026), que reúne areia, conchas, ouriços e pedras. O trabalho transforma esses elementos em uma espécie de cartografia afetiva da cidade, construída a partir de vestígios, deslocamentos e das marcas deixadas pela passagem do tempo na paisagem soteropolitana. 

A mostra também marca o início da representação de Ygor Landarin pela Galatea. Em um momento de crescente projeção institucional, o artista integra, em 2026, a exposição 39º Panorama da Arte Brasileira: Depois que tudo foi dito, no Museu de Arte Moderna de São Paulo, e foi indicado ao Prêmio Pipa. Sua produção artística também integra a coleção do Museu de Arte do Rio. 

Mesmo partindo de práticas distintas, Melzer e Landarin compartilham interesses estéticos que se cruzam. Na pesquisa artística de ambos, a matéria está sempre em transformação, entre acumulação e modificação ao longo do tempo e dos territórios. O Paraíso, aqui, transita entre o real e o imaginado, não como um lugar idealizado, mas como uma experiência em permanente mudança, onde imagens emergem como resultado de operações que articulam memória, observação e imaginação. 

A programação da mostra inclui ainda uma conversa com Camila Yunes Guarita – fundadora da Kura e uma das principais art advisors do Brasil – ao lado de Gabriela Melzer e Ygor Landarin. O encontro será uma oportunidade para conhecer os caminhos que deram origem à exposição, destacando as aproximações entre as pesquisas dos artistas e a maneira como suas experiências em Salvador aparecem nos trabalhos apresentados. A atividade acontece no dia 3 de julho, às 16h30, pouco antes da abertura, no espaço principal da galeria. 

Sobre a artista 

Gabriela Melzer (1999) vive e trabalha em São Paulo. Morou em Nova York, onde aprimorou sua técnica de pintura e desenho através de cursos na The New School e Art Students League, e se formou em Liberal Arts pela Parsons New School. Criando formas orgânicas que se constituem a partir da alternância do movimento e da cor, Melzer busca ir de encontro ao imediatismo e à aceleração dos eventos na contemporaneidade. No rastro do abstracionismo lírico, ela absorve o seu entorno ressignificando e interligando os elementos do mundo com os seus contornos densos e arredondados. 

Melzer se interessa em proporcionar um repouso para a visão, construindo paisagens interiores que jogam com o intangível, com o que está para além da nossa apreensão imediata. Encontra inspiração nas formas ao mesmo tempo aleatórias e padronizadas com

as quais nos deparamos na natureza, com suas imperfeições e seus fractais. Como em um diálogo permanentemente aberto, a dança das cores e seu fluxo orgânico convidam o espectador a desvendar as possibilidades da obra navegando pelos interstícios que a composição em grades produz. 

Entre as exposições que participou, destacam-se: Gabriela Melzer: delírios solares (Individual, Galeria Filomena – Rosewood, São Paulo, Brasil, 2025); Gabriela Melzer: Animismo (Individual, FEMA Gallery, Cascais, Portugal, 2025); Diálogos (Coletiva, Arpa & Shopping Cidade Jardim, São Paulo, 2024); Líquen teso (Coletiva, Galatea, São Paulo, 2024); Lux Feminae (Coletiva, Por Olivia Zabludovicz e Lily Cohen, Nova York, 2022) e So show (Coletiva, São Paulo, 2022). 

Sobre o artista 

Ygor Landarin (1995) nasceu em Uruguaiana, no Rio Grande do Sul, e cresceu em Florianópolis, Santa Catarina. Formou-se na Escola de Artes Visuais Parque Lage, no Rio de Janeiro, em 2018, sendo selecionado para o curso Formação e Deformação, da mesma instituição. Recebeu também bolsa no curso lmersões Poéticas, da Escola Sem Sítio, no Rio de Janeiro, em 2017. 

Sua pesquisa artística aborda memórias e heranças visuais ligadas à cidade onde cresceu, desenvolvendo uma poética que aproxima arte e arqueologia, através da escultura, do bordado e da experimentação com diferentes materiais como a areia, a porcelana fria e o cimento. Muitas vezes, seus trabalhos criam abstrações relacionadas a concheiros e sambaquis, investigando camadas de tempo, permanência e transformação. 

Desde 2017, colaborou com a artista Brígida Baltar (1959–2022), passando a integrar, posteriormente, a equipe de conservação, memória e continuidade de projetos do Instituto Brígida Baltar. Referência fundamental em sua trajetória, a artista influenciou diretamente a incorporação do bordado na prática de Landarin. Em seus trabalhos, Landarin desenvolve o desenho como marcação inicial, que depois é bordado, e posteriormente recoberto com areia — procedimento que estabelece um diálogo com a produção de Baltar, sobretudo em seus últimos anos, quando a artista se dedicou de forma mais intensa ao bordado. 

Ygor Landarin já participou de residências artísticas como: FAAP (São Paulo, 2019) e Domo Damo (São Paulo, 2025). Entre as exposições das quais participou, destacam-se: 39º Panorama da Arte Brasileira: Depois que tudo foi dito (Coletiva, Museu de Arte Moderna de São Paulo – MAM-SP, São Paulo, Brasil, 2026); Falácia Natural (Coletiva, Galeria Refresco, Rio de Janeiro, Brasil, 2026); A ética e a estética na era da imagem (Coletiva, Centro Cultural Correios RJ, Rio de Janeiro, Brasil, 2026); Manguezal (Coletiva, Centro Cultural Banco do

Brasil – CCBB RJ, Rio de Janeiro, Brasil, 2025); Querela – Para além de qualquer princípio (Coletiva, Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica, Rio de Janeiro, Brasil, 2025); Mostra Nise da Silveira – A revolução pelo afeto (Coletiva, CCBB, Brasília, Brasil, 2024–2025); Bienal de Coimbra (Coletiva, Coimbra, Portugal, 2024); Diálogos entre arte e natureza (Coletiva, Galeria da Passagem – UERJ, Rio de Janeiro, Brasil, 2024); Ano azul (Individual, Galeria Inox, Rio de Janeiro, Brasil, 2021); Corpo Contido (Individual, Galeria Inox, Rio de Janeiro, Brasil, 2019). O artista também possui obras na coleção do Museu de Arte do Rio — MAR, no Rio de Janeiro. Em 2026, foi indicado ao Prêmio Pipa.