Com a chegada oficial do inverno no próximo domingo (21), a queda das temperaturas costuma trazer uma mudança de comportamento de redução da prática de exercícios físicos, comum entre os brasileiros. Ao mesmo tempo, aumentam os casos de doenças respiratórias e correlatas impulsionados por uma rotina mais reclusa e pela falsa percepção de que o frio exige menos movimento e mais repouso.
No entanto, experts apontam que a estação pode representar justamente uma oportunidade para potencializar resultados relacionados à saúde, condicionamento físico e composição corporal.
Segundo o profissional de Educação Física e especialista em fisiologia do exercício e alto rendimento Jauan Anselmo, o organismo passa por adaptações importantes durante os períodos mais frios, tornando-se mais eficiente no gasto energético.
“O frio faz com que o corpo trabalhe mais para manter sua temperatura interna estável. Isso significa um aumento natural do gasto energético diário, o que torna um período extremamente favorável para quem busca emagrecimento, melhora metabólica e manutenção da saúde, desde que exista uma estratégia adequada de treinamento”, explica.
Apesar disso, a redução da exposição ao sol, os dias mais curtos e as temperaturas mais baixas acabam contribuindo para uma queda nos níveis de atividade física, favorecendo a perda de massa muscular, o aumento do sedentarismo e a redução da capacidade cardiorrespiratória.

Exercício fortalece a imunidade, mas exige equilíbrio
Outro fator que costuma preocupar muitas pessoas é a relação entre atividade física e imunidade durante os meses mais frios. De acordo com Jauan, o exercício é um aliado importante na prevenção de doenças respiratórias, desde que seja realizado dentro de parâmetros adequados.
Pesquisas conduzidas por cientistas da Universidade de Loughborough, no Reino Unido, referência mundial na área de imunologia do exercício, demonstram que a prática regular de exercícios de intensidade moderada está associada a uma menor incidência de infecções respiratórias. Por outro lado, sessões excessivamente intensas, sem recuperação adequada, podem provocar uma redução temporária das defesas do organismo.
“O exercício funciona como um regulador do sistema imunológico. Quando existe equilíbrio entre treino, recuperação, alimentação e sono, os benefícios são enormes. O problema não está no exercício em si, mas no excesso sem planejamento. Aí sim pode haver uma sobrecarga que compromete momentaneamente a imunidade”, destaca.
Cuidados redobrados durante a estação
Durante o inverno, também é comum o aumento das queixas relacionadas ao desconforto respiratório durante a atividade física, especialmente em ambientes externos.
Estudos publicados em periódicos como Medicine & Science in Sports & Exercise apontam que dois fatores são fundamentais para minimizar processos inflamatórios das vias aéreas: um aquecimento gradual antes do treino e a manutenção da hidratação adequada ao longo do dia.
Segundo o profissional, que atua na área há mais de 10 anos, muitas pessoas associam a sensação reduzida de sede ao menor risco de desidratação, o que não corresponde à realidade.
“No inverno nós continuamos perdendo líquidos pela respiração, pela transpiração e pelos processos metabólicos, a diferença é que sentimos menos sede. Por isso, hidratação e aquecimento passam a ser componentes fundamentais para um treino seguro e eficiente”, afirma.
Frio pode favorecer o metabolismo
Além dos benefícios cardiovasculares e imunológicos, o inverno também pode favorecer adaptações metabólicas importantes.
Pesquisadores do Grupo de Estudos e Pesquisas em Exercício e Metabolismo (GEPEM), vinculado às Universidades de São Paulo (USP) e de Brasília (UnB), vêm demonstrando como o exercício físico influencia diretamente a função mitocondrial, que são estruturas celulares responsáveis pela produção de energia.
Os estudos apontam que ambientes com temperaturas amenas ou controladas podem favorecer algumas dessas adaptações, contribuindo para uma utilização mais eficiente dos substratos energéticos e para a manutenção de um metabolismo mais ativo, inclusive em períodos de repouso.
Para Jauan, esse é um dos aspectos mais interessantes da prática regular de exercícios durante a estação: “O inverno pode potencializar esse cenário porque o corpo já está naturalmente mobilizando mais recursos para manter seu equilíbrio térmico”, explica.
Planejamento é a chave
Embora o inverno apresente condições favoráveis para a prática de atividade física, o especialista ressalta que o principal desafio continua sendo a adesão ao exercício. De acordo com ele, manter a regularidade é mais importante do que buscar treinos extremamente intensos ou soluções rápidas.
“O maior benefício do inverno está na oportunidade de criar consistência. Quem consegue atravessar essa estação mantendo uma rotina de exercícios normalmente chega à primavera e ao verão com mais condicionamento, mais saúde e melhores resultados. O segredo é adaptar à realidade de cada pessoa, respeitando suas condições clínicas, seus objetivos e seu nível de preparo físico”, conclui.












Deixe uma Resposta
Ver Comentários