Confiança virou ativo estratégico das empresas: Crises de reputação começam antes das redes sociais, alertam especialistas

Carolina Heim

No cenário atual em que as informações circulam em tempo real e as redes sociais ampliam o alcance de qualquer episódio, a reputação passou a ser um dos ativos mais valiosos das empresas. Decisões equivocadas, falhas de conduta ou problemas de gestão podem ganhar repercussão nacional em questão de minutos, comprometendo anos de construção de marca e relacionamento com clientes, investidores e parceiros. Nesse contexto, a governança corporativa deixa de ser vista apenas como um conjunto de boas práticas voltadas à conformidade legal e à proteção do patrimônio e assume um papel estratégico na preservação da confiança, da credibilidade e da sustentabilidade das organizações.

Para o advogado Ruy Andrade, especialista em Direito dos Negócios, sócio-fundador da Ruy Andrade Advocacia, Conselheiro de Administração Certificado (IBGC), professor de Direito Empresarial e consultor de empresas familiares, uma crise de reputação raramente surge de forma inesperada. “Na maioria das vezes, as crises não começam nas redes sociais. Elas começam muito antes, quando faltam processos claros de decisão, mecanismos de controle, definição de responsabilidades e uma cultura organizacional baseada na ética e na transparência. As redes apenas tornam o problema visível.”

Segundo o especialista, o fortalecimento das práticas de governança tornou-se uma ferramenta indispensável para reduzir riscos reputacionais e aumentar a capacidade das empresas de responder a situações críticas. “A boa governança cria ambientes mais preparados para prevenir erros, identificar vulnerabilidades e agir rapidamente quando surgem problemas. Ela estabelece critérios para a tomada de decisões e reduz a dependência de escolhas individuais, que muitas vezes são feitas sob pressão.”

Entre os pilares desse processo estão programas de compliance, códigos de conduta, políticas internas, canais de denúncia, gestão de riscos e processos estruturados de tomada de decisão. Para a advogada Carolina Heim, sócia da Ruy Andrade Advocacia, professora e especialista em Direito e Processo do Trabalho e Meio Ambiente do Trabalho, essas práticas também estão diretamente relacionadas à construção de ambientes corporativos mais seguros e saudáveis. “A reputação de uma empresa não depende apenas da forma como ela se comunica com o mercado, mas também da maneira como trata seus colaboradores. Hoje, investidores, clientes e a sociedade observam se existe coerência entre o discurso institucional e as práticas adotadas no ambiente de trabalho.”

A especialista destaca que esse debate ganha ainda mais relevância diante da atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que reforça a necessidade de identificar, avaliar e gerenciar riscos psicossociais no ambiente laboral. Segundo Carolina Heim, a norma representa um chamado para que a alta administração assuma um compromisso efetivo com a saúde organizacional. “A atualização da NR-1 reforça que o cuidado com a saúde mental e com os riscos psicossociais não pode ser tratado apenas como uma atribuição do RH. Trata-se de uma responsabilidade da alta gestão, que deve implementar medidas efetivas para construir um ambiente de trabalho saudável, ainda que isso exija mudanças estruturais, revisão de processos e investimentos.”

Outro ponto essencial, segundo a advogada, é a preparação das lideranças. “Grande parte dos riscos psicossociais surge nas relações de liderança. Os gestores precisam ser capacitados para reconhecer esses fatores, compreender seus impactos sobre a saúde dos trabalhadores e desenvolver uma liderança capaz de alcançar resultados sem comprometer o bem-estar das equipes. Além de reduzir passivos trabalhistas, essa mudança fortalece a cultura organizacional e protege a reputação da empresa.”

Ruy Andrade – FotoSidney Haack

Na avaliação de Ruy Andrade, empresas familiares e organizações de médio porte também precisam incorporar essa visão. Embora muitas associem governança apenas às grandes corporações, a exposição proporcionada pelo ambiente digital tornou qualquer negócio potencialmente vulnerável a impactos reputacionais. “Uma crise não escolhe o tamanho da empresa. Qualquer organização está sujeita ao julgamento público. A diferença está na preparação para responder a esses desafios e na existência de estruturas que reduzam a probabilidade de erros.”

Para o advogado, a atuação dos conselhos de administração e dos órgãos de governança ganhou ainda mais relevância diante da velocidade com que informações se disseminam e da crescente expectativa por transparência. “O papel da governança não é impedir que problemas aconteçam, mas criar uma organização capaz de preveni-los, identificá-los rapidamente e enfrentá-los com responsabilidade. Empresas que tratam a reputação como um ativo estratégico tendem a construir relações mais sólidas e sustentáveis com todos os seus públicos.” Na visão de Ruy Andrade, esse movimento representa uma mudança definitiva na gestão empresarial. “Se antes a governança era vista como uma forma de proteger o patrimônio, hoje ela protege algo igualmente valioso: a confiança. Em um ambiente de negócios cada vez mais conectado, preservar a confiança significa preservar a própria continuidade da empresa.”