Aquela voz mais grave, áspera e acompanhada de um pigarro constante costuma ser encarada por muitos fumantes como um traço “normal” de quem consome cigarro há anos. No entanto, o que muitos consideram apenas um detalhe estético é, na verdade, a laringe pedindo socorro. Às vésperas do Dia Nacional contra o Tabagismo (29 de agosto), o alerta ganha caráter de urgência: alterações vocais persistentes podem esconder desde lesões severas até tumores gravíssimos.
Dados do sistema Vigitel do Ministério da Saúde indicam que 11,5% dos adultos nas capitais brasileiras fumam (13,9% dos homens e 9,5% das mulheres). O hábito é o principal fator de risco para o câncer de laringe, doença para a qual o Instituto Nacional de Câncer (INCA) projeta 8.510 novos casos anuais no triênio 2026–2028.
Diante desse cenário, a Fonoaudiologia surge como uma ferramenta decisiva de reabilitação. Contudo, os especialistas fazem um alerta categórico: nenhum tratamento ou tecnologia substitui a decisão primária de apagar o cigarro. “A terapia fonoaudiológica atua na reabilitação funcional, reduzindo a sobrecarga e ajudando a recuperar a potência vocal. Mas a Fonoaudiologia não ‘apaga’ os efeitos do fumo nem neutraliza o dano celular. A grande mensagem que precisa ser dita é: parar de fumar é insubstituível”, destaca a fonoaudióloga Carolina Pamponet, especialista em voz profissional, diretora da Fonoclin em Feira de Santana (BA) e integrante da equipe da Otorrino Center em Salvador.
O perigo de se acostumar com a rouquidão
O maior desafio clínico no atendimento ao fumante é a “naturalização” do sintoma. Como a perda da qualidade da voz costuma ser gradual (começando com um cansaço ao falar e progredindo para a perda de potência), o paciente se habitua ao esforço e adia a busca por ajuda. A orientação médica e fonoaudiológica é clara: qualquer rouquidão, pigarro ou dor para engolir que persista por mais de 15 dias exige investigação médica imediata, preferencialmente combinando o diagnóstico do otorrinolaringologista com a avaliação fonoaudiológica.
Entre os sinais de alerta na voz do fumante estão a rouquidão constante ou progressiva; pigarro e necessidade frequente de “limpar” a garganta; perda de volume/potência ao falar; sensação de “caroço” ou corpo estranho na garganta; e cansaço extremo após breves períodos de fala.
A ilusão do Vape: vapor não é sinônimo de segurança
A onda dos Dispositivos Eletrônicos para Fumar (DEFs) — populares como vapes ou pods — trouxe um ingrediente extra de preocupação. Proibidos no Brasil pela Anvisa (RDC nº 855/2024), esses aparelhos costumam ser erroneamente encarados como uma alternativa “inofensiva” ao cigarro tradicional por não gerarem fumaça. A Ciência, contudo, desmente o mito. Segundo o INCA, os aerossóis inalados contêm nicotina, aditivos sintéticos e substâncias altamente irritantes para a mucosa vocal e vias respiratórias.
“A ideia de que o vape é inofensivo para a voz é uma armadilha perigosa. A inalação contínua dessas substâncias gera agressão direta ao aparelho fonador. O paciente que troca o cigarro pelo dispositivo eletrônico continua exposto a riscos sérios”, adverte Carolina Pamponet.
Reabilitação vocal: aliados tecnológicos não fazem milagres
Na prática fonoaudiológica, o tratamento do fumante (ou ex-fumante) é individualizado. Envolve exercícios específicos de trato vocal, treino de ressonância, adequação do fluxo de ar e estratégias para eliminar o esforço excessivo ao falar. Tecnologias modernas de reabilitação podem acelerar o ganho de eficiência vocal, mas possuem limites claros. “Não existe exercício mágico nem equipamento que torne o hábito de fumar seguro. O objetivo da Fonoaudiologia é devolver a função vocal e melhorar a qualidade de vida, mas a única medida capaz de cessar a agressão contínua aos tecidos da laringe é parar de fumar. E os benefícios dessa decisão ocorrem em qualquer idade ou tempo de vício”*, conclui a fonoaudióloga.
Para profissionais que dependem diretamente da voz para trabalhar, como professores, cantores, jornalistas e palestrantes, a atenção deve ser redobrada. Cuidar da voz envolve hidratação, descanso e boa técnica, mas, acima de tudo, a preservação do seu maior instrumento de trabalho livre da fumaça.












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