Arquitetura de interiores resgata memórias, personalidade e escolhas afetivas em contraponto aos ambientes excessivamente padronizados
Durante alguns anos, a ideia de uma casa bonita pareceu caminhar lado a lado com ambientes perfeitamente organizados, paletas neutras, móveis semelhantes e espaços quase prontos para serem fotografados. Agora, um movimento em sentido contrário começa a ganhar força na arquitetura de interiores: menos tendência e mais identidade.
A proposta não significa abandonar estética, funcionalidade ou sofisticação. Pelo contrário. O que muda é a maneira de compreender o morar. Objetos herdados, fotografias, obras de arte, lembranças de viagens, móveis antigos, materiais naturais e peças que contam histórias voltam a ocupar lugar de destaque nos projetos.
Para o arquiteto Rodrigo Cassieri, uma residência precisa revelar características de quem vive nela, e não apenas reproduzir referências estéticas do momento. “A casa fica muito mais interessante quando conseguimos reconhecer nela a personalidade do morador. Não acredito que um bom projeto precise parecer uma vitrine ou seguir exatamente aquilo que está sendo visto em todos os lugares”, afirma.
Nesse novo olhar, até aquilo que poderia ser considerado uma imperfeição passa a ter valor. Um móvel antigo restaurado, uma coleção construída ao longo dos anos ou uma peça recebida de alguém especial podem estabelecer diálogos com elementos contemporâneos e tornar o ambiente único.
“Quando incorporamos objetos que têm significado para o cliente, o projeto ganha uma camada que nenhuma tendência consegue oferecer: a história. São elementos que despertam lembranças, emoções e pertencimento”, explica Cassieri.
O movimento também acompanha uma mudança de comportamento. Em meio à exposição constante das redes sociais, cresce o desejo por ambientes que não tenham como principal objetivo impressionar os outros, mas acolher quem vive diariamente naquele espaço.
Para Cassieri, o papel do arquiteto também passa por compreender essas particularidades. “Antes de pensar apenas em materiais, cores ou mobiliário, é preciso ouvir. Saber como aquela pessoa vive, o que ela guarda, do que gosta, quais são suas referências e quais memórias gostaria de manter por perto. É daí que nasce uma casa verdadeiramente pessoal.”
Isso não significa necessariamente preencher os espaços com muitas informações. Uma casa com personalidade pode ser minimalista, clássica, contemporânea ou maximalista. O ponto central está na autenticidade das escolhas.
“A identidade não está na quantidade de objetos. Está na intenção. Às vezes, uma única peça carregada de memória consegue dizer muito mais sobre o morador do que um ambiente inteiro construído apenas para acompanhar uma tendência”, acrescenta o arquiteto.
Em uma época em que tantas referências chegam prontas pelas telas, talvez o luxo esteja justamente no caminho inverso: construir espaços que não poderiam pertencer a qualquer pessoa.
E a pergunta fica para quem abre a porta de casa todos os dias: ela está decorada para ser admirada ou para contar a sua história?












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