Setembro Amarelo: psicóloga Bianca Reis destaca a importância de falar de prevenção ao suicídio

Bianca Reis - foto: Luciana Bahia

Falar sobre suicídio, embora ainda seja um tabu, é uma das formas de evitar que esse ato de extremo desespero aconteça. Uma das ações preventivas ligadas ao problema, que ganha projeção e engajamento cada vez maior anualmente é o Setembro Amarelo: mês de conscientização e prevenção ao suicídio.

A campanha Setembro Amarelo, que está ganhando cada vez mais força nas redes sociais, tem o intuito de alertar a população sobre os casos recorrentes de suicídio no Brasil e no mundo. Os dados são alarmantes. Segundo os dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), no Brasil, 14 a 15 mil pessoas tiram a própria vida por ano.

A cada 45 minutos um brasileiro tira a própria vida, ou seja, 32 a 40 por dia. 

No mundo, são registrados cerca de 800 mil suicídios anuais. Trata-se de uma realidade alarmante, com números crescentes, principalmente entre os jovens. O suicídio é a quarta maior causa de morte entre pessoas de 15 a 29 anos, tendo a depressão como um dos principais fatores desencadeantes, segundo especialistas. No entanto, a OMS afirma que o suicídio tem prevenção em mais de 90% dos casos.

O suicídio entre adolescentes e jovens adultos aumentou nas Américas nas últimas duas décadas, enquanto a tendência global segue em queda. Em 2021, 18.157 pessoas de 10 a 24 anos morreram por suicídio na região, de acordo com dados divulgados pela Opas (Organização Pan-Americana da Saúde) em 2026. O crescimento foi especialmente preocupante entre os mais jovens: entre 10 e 14 anos, o avanço foi mais acentuado.

O cenário reforça a importância de reconhecer mudanças de comportamento e, sobretudo, levar a sério quando alguém fala sobre não querer mais viver. Segundo a Opas, três em cada quatro mortes por suicídio entre adolescentes e jovens adultos nas Américas em 2021 ocorreram entre pessoas do sexo masculino. Apesar disso, o aumento das taxas foi mais rápido entre as mulheres. O crescimento de 38% nas taxas de suicídio entre jovens ao longo de pouco mais de duas décadas também superou o avanço de 17% observado na população geral, o que liga o sinal de alerta.

Grande parte das mortes por suicídio em todo o mundo está relacionada a doenças mentais não tratadas ou tratadas de forma inadequada. Depressão, transtorno bipolar e esquizofrenia estão entre os fatores mais associados ao risco, mas também entram nessa equação uso de álcool e outras drogas, desesperança, isolamento social, impulsividade e dificuldades para lidar com problemas. Ter acesso a meios letais também aumenta o risco.

 Segundo a psicóloga Bianca Reis, “Durante muito tempo se acreditou que falar de suicídio levaria as pessoas a pensar em tirar a própria vida, o que é na verdade um grande mito. Quando temos um problema de saúde, precisamos falar sobre ele”.

E embora já tenha sido comprovado o contrário, existe um mito que crianças não têm problemas e isso precisa ser desmistificado. Não existe uma idade específica em que o problema possa se manifestar, portanto, acomete desde crianças e adolescentes até idosos.

“Crianças não pagam boletos, mas elas podem estar pagando altos preços por aqui estarem existindo. Por isso, ideações suicidas não se manifestam apenas na adolescência, na idade adulta e na velhice, mas também na infância. Entre 2012 e 2021 foram 1563 mortes por suicidio entre pessoas de 10 a 14 anos no Brasil”, acrescenta Bianca Reis.

A especialista destaca ainda que esse é um problema grave que afeta pessoas em diferentes momentos da vida e, por esse motivo, é um assunto que merece sempre nossa atenção e não apenas no mês de setembro.

“Alguns fatores que podem contribuir e até potencializar essas ideações são lares muito conflituosos, constantes agressões físicas, abusos psicológicos, homofobia, altas cobranças relacionadas aos estudos e a nota, separação dos pais, bullying, problemas financeiros, dentre outras muitas questões. As crianças são extremamente sensíveis e elas compreendem o mundo de uma maneira bastante particular, mas também extremamente influenciada pela forma na qual as tratamos e apresentamos ela a ela mesma e ao mundo”, pontua a psicóloga.

Ainda sobre o Setembro Amarelo, a cor da campanha está relacionada à história de um adolescente que estava em um carro amarelo, em 1994 nos EUA, quando cometeu suicidio. Para dar visibilidade ao tema, amigos e familiares distribuíram fitas amarelas em seu sepultamento.

 O entorno das pessoas que passam por um sofrimento psíquico muito grande e pensam em se suicidar pode ser um aliado no enfrentamento da questão. Um passo fundamental é procurar manter canais abertos de diálogo e comunicação com essas pessoas para que elas consigam se expressar e ser ouvidas, sem julgamentos.

“Tratá-las como incapazes de lidar com os próprios problemas, fracas, covardes ou de outra forma pejorativa ou preconceituosa não colabora. É necessária uma comunicação empática, compreensiva e solidária com o sofrimento do outro”, alerta Bianca. As redes familiares, de amigos e conhecidos, assim, são muito importantes.

 O auxílio também pode vir de desconhecidos, através por exemplo de ligações que podem ser feitas para o telefone 188, do CVV – Centro de Valorização da Vida, que presta apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntaria e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar. Nas ligações, a pessoa não precisa se identificar e o atendimento pode ser feito também por email e chat disponível no site https://www.cvv.org.br/.

 Outra maneira de ajudar é a orientação quanto à procura de auxílio profissional adequado. “Afeto e carinho são essenciais, mas não dispensam o acompanhamento psicológico/psicoterapêutico bem como médico/psiquiátrico/neurológico”, conclui Bianca Reis.

Sobre Bianca Reis  

Psicóloga 03/11.152, Psicoterapeuta, Palestrante e Facilitadora de Grupos. Bianca é Mestra em Família, Especialista em Psicoterapia Junguiana e Pós-graduada em Estimulação Precoce e pós-graduanda em Neuropsicologia: avaliação e Reabilitação neuropsicológica, Pós-graduanda em Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem e Formada em Terapia do Esquema. Atua há mais de 12 anos na área clínica, tratando de pacientes com demandas voltadas aos relacionamentos familiares e românticos, sexualidade, gênero, infância, ansiedade, depressão e outras importantes questões psicológicas e humanas.