Estreia, no próximo dia 08 de agosto, às 19h, em Salvador, no Teatro Gregório de Mattos, o espetáculo “Nilda: Uma Mulher Retada”, com direção de Marcio Meirelles, dramaturgia de Marcos Uzel e atuação de Andrea Elia no papel principal. A peça inédita retrata a vida e a obra de Nilda Spencer, considerada a dama do teatro baiano e uma figura que muito contribuiu para a evolução do pensamento e dos costumes da sociedade baiana. Além da estreia exclusiva para convidados, o espetáculo terá somente
nove apresentações abertas ao público, todas no mês de agosto, nos dias 09, 14, 15, 16, 21, 22, 23, 28 e 29, sempre às 19h, no mesmo teatro, na Praça Castro Alves.
Com patrocínio da Fundação Gregório de Mattos, por meio do edital Chamadão das Artes Cênicas, a peça mostra o quanto Nilda Spencer foi fundamental para transgredir o conservadorismo da década de 1950 e abrir caminho para a arte na Bahia. O elenco do espetáculo ainda conta com mais oito talentosos atores da cena local: Barbara Borgga, Caio Rodrigo, Cristiane Mendonça, Igor Epifânio, Lucas Valadares, Israel Barreto, Tato Seixas e Pandora. Os ingressos custam R$ 60 (inteira) e R$ 30 (meia) e podem ser adquiridos pela plataforma Sympla ou no próprio teatro, antes do início do espetáculo, nas modalidades pix e dinheiro.
Ao ressaltar a qualidade primorosa do elenco, Marcio Meirelles classifica a peça como um musical de câmara: “temos dois instrumentistas, algo modesto, mas com a estrutura dramatúrgica de um musical”. O diretor também destaca que se trata de um espetáculo bilingue, na medida em que a linguagem de libras é inserida na própria narrativa. “Eu venho pensando há um tempo em novas formas de inclusão, de modo que esse já é o segundo trabalho no qual eu utilizo esse recurso, ou seja, a linguagem de libras não é como uma legenda ou uma tradução simultânea, mas como parte mesmo da peça, tal qual na vida real”, explica ele.
É importante registrar que a realização de “Nilda: Uma Mulher Retada” só foi possível graças à longa pesquisa do jornalista e crítico teatral Marcos Uzel. Primeiro, em 2016, ele defendeu a tese de doutorado sobre Nilda, que foi a maneira que ele encontrou de homenagear todos os artistas pioneiros da velha guarda dos palcos da Bahia. Nilda é um emblema desse coletivo. Depois, em 2021, ele adaptou a tese para o formato de biografia e publicou o livro “Nilda: a dama e o tempo”. Por fim, agora em 2026, o livro foi transformado em espetáculo teatral e tornou-se sua primeira obra dramatúrgica, que funde dados documentais com a licença poética de inserir no texto elementos ficcionais.
Para Uzel, “colocar Nilda em cena torna-se relevante, sobretudo, porque faz com que permaneça viva em nossa memória essa mulher-referência, ícone de uma cultura e um dos nossos patrimônios imateriais”. Andrea Elia, atriz que dá vida a Nilda no palco, faz questão de observar que a vida de Nilda é um panorama da própria história da cultura brasileira na Bahia. “É um nível micro que revela o nível macro, já que ela viveu a serviço do teatro e da cultura; teve sua existência perpassada pelo sonho do teatro e trabalhou por ele com afinco e dedicação, incansavelmente”, resume Elia.
Dessa forma, o público do espetáculo verá a passagem das fases culturais pelas quais o Brasil passou, mas na Bahia, pois é na Bahia que está a vida de Nilda e é na Bahia que o espetáculo se passa. “No tempo em que estamos em cena, que é o tempo da poesia e não é medido em horas, o público será testemunho do passar do tempo histórico”, diz
a protagonista. E complementa: “a peça ainda vai provocar nas pessoas um senso de urgência de liberdade, porque Nilda era uma mulher que transitava livremente pela cidade e gostava de ‘saborear a madrugada’, como ela dizia, mas hoje não podemos mais fazer isso, perdemos esse direito”.
Ao expor essa Bahia nostálgica, por meio do espírito libertário de Nilda, a peça coloca em evidência o valor da liberdade. Mais do que o direito de ir e vir, trata-se de uma liberdade que abarca o direito de ser feliz e a igualdade de direitos. “As novas gerações precisam saber disso: Nilda Spencer deu uma banana para os moralistas da sociedade baiana e, mesmo sem ter pretendido ser uma militante, virou um símbolo de liberdade feminina”, afirma Marcos Uzel. Nilda não sucumbiu ao machismo do conservadorismo dos anos 1950, insistiu nas escolhas que fez e ressignificou o seu lugar no mundo, movida pela alegria de viver.
Além de tudo isso, o movimento capitaneado por Nilda e outros artistas da mesma época marcou uma virada do teatro amador na Bahia para o teatro profissional. “O teatro amador era importante e potente, mas esse marco surgiu da consciência de que o que eles estavam fazendo era o desenvolvimento e o burilamento de um ofício”, explica Marcio Meirelles. Em paralelo, Nilda foi a primeira mulher diretora da Escola de Teatro da UFBA, fez cinema undergound, cinema marginal e cinema comercial, e foi mãe zelosa, esposa amorosa e sonhadora. Andrea Elia projeta: “ao saírem do teatro, as pessoas sentirão vontade de viver mais, viversuas próprias vidas com mais intensidade”.
SINOPSE:
Na Salvador dos anos 1930, Nilda vive a sua infância sonhando em ser uma estrela de Hollywood. Ao se tornar adulta, é surpreendida pelo convite inusitado do amigo Genaro de Carvalho, para que ela conheça um grande diretor teatral que irá fundar uma escola de teatro na Universidade da Bahia (que mais tarde se tornaria a Universidade Federal da Bahia). A partir desse encontro com o encenador Martim Gonçalves, Nilda se transforma. A socialite de rotina previsível, casada, mãe de duas meninas, impõe-se diante do machismo da sociedade baiana, subverte os padrões femininos de uma província e abraça a carreira de atriz. Ao decidir fazer teatro, Nilda coloca em primeiro
plano a alegria de viver, diverte-se na boemia das noites soteropolitanas e vira uma figura icônica na ambiência cultural da cidade de Salvador. Mas também vai ter que lidar com atritos e contradições e enfrentar as agruras da vida artística e acadêmica nos anos de chumbo da ditadura no Brasil, até chegar à velhice plena nos palcos e sem jamais desistir de sua arte.
FICHA TÉCNICA:
Espetáculo: Nilda: uma mulher retada
Encenação: Marcio Meirelles
Texto: Marcos Uzel
Assistência de direção: Hyago Matos
Elenco: Andrea Elia, Barbara Borgga, Caio Rodrigo, Cristiane Mendonça, Igor Epifânio, Israel Barretto, Lucas Valadares, Pandora e Tato Seixas.
Direção musical: Ray Gouveia
Direção de movimento e coreografias: Roberto Montenegro
Cenário: Erick Saboya
Figurinos: Zuarte Júnior
Iluminação: Irma Vidal
Preparação vocal: Manuela Rodrigues
Vídeo: Rafael Grilo
Realização: Via Press












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