Uso excessivo de dispositivos digitais ocupa espaço essencial do desenvolvimento infantil; estudo científico associa o ‘faz de conta’ a ganho de habilidades cognitivas.
Celular, tablet, videogame e outros dispositivos digitais já fazem parte da rotina das crianças, mas o tempo excessivo diante das telas pode ocupar um espaço que também pertence ao brincar, ao movimento, à conversa, à criação e ao convívio com outras pessoas. Neste Mês das Crianças, vale observar o que resta do tempo livre quando as telas ganham cada vez mais centralidade na rotina. Para a psicóloga Amanda Cunha, a questão não é transformar a tecnologia em vilã, já que existem conteúdos digitais de qualidade e situações em que ela pode fazer parte da aprendizagem, mas perceber quando passa a deixar menos espaço para outras experiências importantes da infância.
“Quando uma criança brinca, ela não está simplesmente passando o tempo. Ela está experimentando possibilidades. Quando monta uma torre, inventa uma história, brinca de casinha ou cria uma regra para um jogo, precisa tomar decisões, lidar com frustrações, esperar, negociar e encontrar soluções”, explica Amanda. Segundo a especialista, essas interações transformam a atividade lúdica em uma ferramenta ativa de amadurecimento e socialização.
Para a psicóloga, o brincar de faz de conta, por exemplo, ocupa um lugar central nessa experiência porque permite que a criança desenvolva histórias, personagens e regras próprias, sem necessariamente seguir um roteiro definido por um adulto. “Essa liberdade favorece situações em que a criança pode explorar a criatividade e estabelecer uma relação própria com os objetos e com o ambiente, enquanto aprende a organizar ideias, fazer escolhas e lidar com diferentes possibilidades”, afirma.

A relação entre o brincar de faz de conta e essas habilidades também vem sendo investigada pela ciência. Uma meta-análise publicada em 2026 na revista Cognitive Development, que reuniu 42 estudos com 5.009 crianças, encontrou associação positiva entre o faz de conta e as funções executivas, conjunto de habilidades que inclui controle da atenção, memória de trabalho e flexibilidade cognitiva. Os autores, Feiyan Li e Hui Zhang, ressaltam, porém, que a maior parte das evidências é correlacional e que ainda são necessários estudos longitudinais e experimentais.
Sobre a função do brincar, Amanda observa que ele não precisa ter uma finalidade pedagógica previamente definida pelos adultos. “Nem todo brinquedo precisa ensinar uma cor, uma letra ou um número”, afirma. A psicóloga também recorre aos conceitos do psicanalista Donald Winnicott, na obra O Brincar e a Realidade, para explicar a importância de um espaço em que a criança possa criar a própria brincadeira, e não apenas receber experiências prontas. “Uma caixa pode virar uma casa. Um lençol pode virar uma cabana. Um boneco pode ganhar uma história inteira”, exemplifica Amanda.
Esse espaço para o brincar também aparece nas orientações oficiais. O Guia Crianças, Adolescentes e Telas, do Governo Federal, recomenda que o uso de dispositivos digitais seja supervisionado e não substitua atividades fundamentais para o desenvolvimento. Para crianças menores de dois anos, a orientação é evitar telas, com exceções como videochamadas, priorizando brincadeiras, interações Boneca presenciais, movimento, música e livros.
De acordo com Amanda, observar apenas o tempo de tela não é suficiente. A rotina da criança também precisa incluir brincadeiras sozinha e com outras crianças, movimento, conversa, imaginação, criação e situações em que possa tentar novamente e descobrir o que fazer sem receber uma resposta pronta. Por isso, a pergunta para os pais neste Mês das Crianças pode ir além de “quanto tempo meu filho fica na tela?” e considerar também “que experiências estão tendo espaço na vida dele?”.
Na avaliação da psicóloga, mais do que escolher entre “tela” ou “brinquedo”, o desafio é construir uma infância em que a tecnologia tenha seu lugar, mas não ocupe todos os lugares. “Brincar não é apenas uma maneira de preencher o tempo da criança. É uma experiência por meio da qual ela pode criar, experimentar, se relacionar e descobrir diferentes formas de estar no mundo”, afirma.












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