Na CASACOR Bahia 2026 o arquiteto Gabriel Magalhães apresenta o Espaço Deca — Águas que acalmam, ambiente com 120m² concebido como uma morada contemporânea, com elementos físicos que evocam a cura espiritual e a reconexão interior do morador. Inspirado no ritual ancestral Omí Tútú, de origem iorubá, que utiliza a água como elemento capaz de acalmar a mente, refrescar a terra e apaziguar a vida. Assim, o ambiente convida a reconhecer a água não apenas como matéria, mas como ritual do cotidiano brasileiro.
Mais do que um espaço expositivo, o projeto traduz o ritual como linguagem arquitetônica, inspirado nos princípios da liturgia iorubá que afirmam: somente a água fresca é capaz de apaziguar o calor da terra. A partir dessa premissa, o espaço se estrutura em dois eixos conceituais complementares — água e terra — que organizam a experiência espacial e sensorial do ambiente.

O eixo da água percorre o átrio, a cozinha, a sala e o terraço. Já o eixo da terra se revela no quarto e no banheiro. Essa narrativa conduz o visitante por uma travessia sensorial e contemplativa, onde arquitetura, arte e ancestralidade se entrelaçam para evocar uma ideia contemporânea de bem-estar, profundamente conectada às referências afro-diaspóricas e à potência cultural baiana.
A casa ocupa três espaços integrados do histórico Convento das Mercês. O primeiro deles está localizado na área que originalmente abrigava uma das salas da antiga escola. É nele em que se revelam o átrio, a cozinha e a sala. O primeiro, marca o início do percurso através de uma curva elegante revestida em bambu ebanizado, gesto arquitetônico de forte presença escultórica que conduz o visitante e estabelece a transição entre o exterior e o universo do Espaço Deca. Ao centro da composição, a cozinha assume protagonismo absoluto. Estruturada a partir de uma ilha de proporções generosas, o ambiente traduz o gesto de cozinhar e o como ritual contemporâneo de encontro. A materialidade sofisticada e a integração espacial reforçam a atmosfera de conexão humana proposta pelo projeto. Na continuidade, a sala se apresenta como espaço de contemplação e convivência, valorizando o design brasileiro por meio de uma criteriosa curadoria de mobiliário de autor e obras de arte. Texturas naturais, iluminação delicada e a delicadeza de traço ditam a linha projetual.
O segundo trecho do ambiente ocupa um dos quadrantes de acesso à tribuna da cúpula da Igreja das Mercês. Neste núcleo, quarto e sanitário aprofundando o conceito do espaço. O quarto assume uma atmosfera mais densa e intimista, marcada por tonalidades profundas, iluminação baixa e uma cabeceira revestida por tecido de estampa étnica. O ambiente convida à introspecção e tem como elemento escultórico a escada helicoidal, original da edificação e que brota no meio do espaço. Já o sanitário surge como peça central desta área. É nele que a relação entre água e arquitetura se manifesta de forma mais evidente e a conexão visual com o ambiente externo ganha força, através das fenestrações criadas pelo projeto.

O terceiro e último trecho ocupa o terraço, o spa da casa, onde uma banheira se insere em meio a um jardim envolvente, criando uma atmosfera de refúgio urbano. Ao fundo, uma fonte mantém a água presente e viva em movimento contínuo, reforçando o elemento central do conceito Omi Tútù e sua simbologia ligada à renovação, ao fluxo e à purificação. Sobre a fonte, uma pintura de Alexandre Feliciano estabelece um diálogo sensível entre arte e arquitetura, ampliando a dimensão contemplativa e poética do espaço.
A arte percorre toda a casa como elemento fundamental da narrativa espacial, estabelecendo diálogos entre contemporaneidade, memória e identidade brasileira. A direção de arte, assinada por Gabriela Daltro, reúne obras de artistas atuais como Aline Lopes, Mateus Morbeck, Joãozito e Vico, em contraponto à força cromática de modernistas como Aldemir Martins e José Pancetti. As obras não surgem apenas como composição estética, mas como extensões sensíveis da atmosfera do projeto.

No mobiliário, peças assinadas por Zanini de Zanini, Arthur Casas, Jader Almeida e pelo estúdio Latoog reforçam a valorização do design autoral brasileiro e da sofisticação atemporal presente em toda a composição. O grande destaque fica por conta da Cadeira Bule, desenhada por Sérgio Rodrigues em 1991 e reeditada este ano.
É a partir desse contexto em que ancestralidade, água, arte e matéria se entrelaçam que o arquiteto propõe sua leitura sobre o morar contemporâneo: uma experiência mais sensível, ritualística e profundamente conectada às dimensões essenciais da vida.












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