Festival Mãos da Moda leva criação autoral e artesanato baiano ao MAC_BAHIA

Alexsandro Rodrigues e Albert Lefundes, da Teroy13_ Adriana Meira_ Adailton Junior, da Areia_ Camila Oliveira, da Dua_ Luci

A partir desta sexta-feira (22) e até domingo (24), os jardins do Museu de Arte Contemporânea da Bahia, na Graça, recebem desfiles e uma feira de moda artesanal que coloca em evidência um dos movimentos mais interessantes da moda brasileira atual: o encontro entre criação autoral e saberes manuais tradicionais.

Criado pela Nordestesse e patrocinado pelo Riachuelo Lab, plataforma de curadoria de talentos em moda, arte e cultura da Riachuelo, o Festival Mãos da Moda Bahia conecta seis marcas autorais e seis grupos artesanais de diferentes territórios do estado em um processo de criação colaborativa que levou cerca de seis meses.

O resultado poderá ser visto nas passarelas do evento: coleções construídas a partir de renda de bilro, bordado caseado, ponto cheio e crivo rústico, em peças que traduzem não apenas estética, mas também memória, ancestralidade e permanência.

Momento potente da moda baiana

Os desfiles acontecem ao longo do sábado e domingo, reunindo diferentes linguagens da moda autoral baiana, da alfaiataria contemporânea ao streetwear, das bijoux conceituais à moda regenerativa.

No sábado, às 15h20, a Areia apresenta a coleção “Mimosa 2: Açucarados”, desenvolvida em parceria com a Associação das Mulheres Artesãs Padre André (AMAPA), de Correntina. Conhecida pela modelagem oversized e pelo trabalho com fibras naturais, a marca criada por Adailton Junior incorpora bordados e elementos artesanais em uma roupa leve, solar e contemporânea.

Às 15h50, a TEROY13, marca criada pelos soteropolitanos Alexsandro Rodrigues e Albert Lefundes, apresenta a coleção “Vertigem”, desenvolvida em parceria com o grupo Mulheres do Algodão de Guanambi. Com forte influência do streetwear, do clubber wear e das subculturas periféricas, a marca mistura moda urbana e manualidade em peças bordadas sobre corino, sarja, jeans e tricoline. “Foi um desafio adaptar o bordado que fazemos a esses tecidos mais pesados, tivemos até de criar um ponto novo”, diz Ana Fiúza Caires, fundadora do Grupo Mulheres do Algodão de Guanambi, cujas artesãs produzem peças em algodão agroecológico, cuidando desde o plantio ao acabamento. 

Fechando os desfiles de sábado, às 16h20, a InttuÍ leva para o MAC_BAHIA a coleção “Pele de Céu”, criada ao lado da Rendavan, Associação de Rendeiras de Dias D’Ávila especializada em renda de bilro e bordado. A marca comandada por Washington Carvalho vem construindo uma alfaiataria ampla, fluida e poética, em que o fazer manual aparece como parte estrutural da roupa.

No domingo, às 15h20, Luci Bortowski apresenta “Memórias para o Futuro”, coleção desenvolvida junto à Associação dos Artesãos de Saubara, mesclando renda de bilro e cestaria. Conhecida pelo trabalho com reaproveitamento têxtil e moda regenerativa, a estilista transforma toalhas, rendas, bordados e tecidos antigos em novas peças, em diálogo com a tradição da renda de bilro produzida pelas artesãs do Recôncavo Baiano, lideradas pela mestra Maria do Carmo Amorim, quarta geração de uma família de rendeiras. “Tenho 79 anos e sua artesã desde a barriga da minha mãe, porque já ouvia os sons e as cantigas dos bilros antes de nascer.” Aos 7 anos, aprendeu os primeiros pontos e, desde então, se dedica a esta tradição e compartilha seus saberes. 

Às 15h50, a Dua apresenta “Benditas”, coleção criada em colaboração com a Associação Artesanal Chitarte, de Cachoeira. Fundada por Camila Oliveira ao lado da mãe, a marca de bijoux parte de referências afro-brasileiras, memória familiar e religiosidade para criar peças marcadas por dourado, búzios e experimentações com diferentes materiais. A coleção “Benditas” homenageia a Irmandade da Boa Morte, também de Cachoeira, e terá maxibijoux vestíveis que mesclam metal e bordado crivo rústico e ponto-cheio, executado pelas artesãs da Chitarte, conhecida pelo bordado sobre chita, técnica que transformou o grupo em Patrimônio Cultural da Bahia.

Encerrando os desfiles, às 16h10, Adriana Meira apresenta “Rio que Conta”, coleção criada em parceria com a Associação de Mulheres Artesãs de Barra Bananal e Riacho das Pedras, em Rio de Contas, na Chapada Diamantina. Conhecida pelos patchworks e pelas aplicações têxteis carregadas de referências afro-brasileiras e do sertão, , a estilista incorpora ao trabalho o crivo rústico produzido pelas artesãs da Chapada Diamantina.

Além dos desfiles, a Feira de Moda Artesanal segue funcionando no sábado e domingo, das 10h às 20h, nos jardins do MAC_BAHIA.

Feira de Moda Artesanal da Bahia

Enquanto os desfiles ocupam os jardins do MAC_BAHIA no sábado e no domingo, a Feira de Moda Artesanal da Bahia recebe o público – com acesso gratuito – durante os três dias de evento, reunindo 23 artesãos e coletivos com peças em renda, bordado, crochê, acessórios e tecelagem.

Para Daniela Falcão, fundadora da Nordestesse, o projeto nasce justamente da necessidade de aproximar criadores de moda autoral dos grupos artesanais brasileiros. “O Mãos da Moda surge para estreitar esses laços, garantindo recursos humanos e financeiros para que essa parceria resulte numa coleção coesa e que fortaleça tanto as marcas quanto os grupos artesanais”, afirma.

A dimensão econômica e cultural do projeto também é destacada por Weslen Moreira, coordenador executivo de Fomento ao Artesanato da Bahia. Segundo ele, iniciativas como essa ajudam a posicionar o artesanato baiano em novos mercados. “É um encontro entre identidade, ancestralidade e inovação, que amplia oportunidades de geração de renda e fortalece a presença dos artesãos e artesãs baianos em espaços cada vez mais estratégicos no cenário nacional”, diz.

Do lado da Riachuelo, parceira do projeto através do Riachuelo Lab, a proposta é investir na criatividade brasileira e fortalecer o ecossistema criativo do país. “O Riachuelo Lab nasce como um espaço de experimentação, criação e conexão entre talentos da moda e da cultura”, afirma Cathyelle Schroeder, CMO da marca.

Depois da estreia em Salvador, as coleções seguem para Fortaleza, onde serão apresentadas no Dragão Fashion Brasil, maior semana de moda do Norte-Nordeste.