Uma situação vivida durante uma ação de educação empreendedora em uma escola de Juazeiro foi o ponto de partida para que o estagiário Gabriel Castro Souza Santos transformasse um incômodo em uma solução de acessibilidade. Ao perceber que a equipe do Sebrae não conseguia se comunicar diretamente com um estudante com deficiência auditiva interessado no projeto apresentado naquele dia, ele decidiu buscar uma forma de preparar os colaboradores para atender pessoas surdas que procuram a instituição para empreender.
Da experiência nasceu o Mãos Empreendedoras, plataforma desenvolvida por Gabriel com uso de inteligência artificial para auxiliar os colaboradores do Sebrae no aprendizado de Libras. A iniciativa garantiu ao estudante o primeiro lugar na categoria IEL Estágio, modalidade Estagiário Inovador – Grandes, na etapa Bahia do Prêmio IEL 2026.
“A gente não conseguiu se comunicar diretamente com ele. Por sorte, havia uma tradutora de Libras no local, mas sentimos que ele não foi representado naquele momento e ficamos com aquilo no coração, porque queríamos ter conseguido incluí-lo. A partir disso, fomos pesquisar e criamos o projeto Mãos Empreendedoras”, conta Gabriel, que atua no SEBRAE BA – Unidade Regional de Juazeiro.
A plataforma utiliza inteligência artificial para ensinar conteúdos de Libras relacionados principalmente ao empreendedorismo e ao atendimento ao público. Por meio da ferramenta, os colaboradores podem aprender vocabulário, interagir com um avatar de inteligência artificial, participar de atividades gamificadas e desenvolver o aprendizado de maneira autônoma.
A proposta é permitir que uma pessoa com deficiência auditiva que procure o Sebrae para abrir um negócio, tirar dúvidas ou receber orientação tenha mais condições de se comunicar diretamente com quem realiza o atendimento. Segundo Gabriel, uma pesquisa interna realizada na Unidade Regional de Juazeiro mostrou interesse de todos os colaboradores consultados em aprender Libras, embora eles apontassem dificuldade pela ausência de uma ferramenta que facilitasse esse aprendizado.
“Eu sempre me propus, dentro do Sebrae em Juazeiro e também dentro da rede Sebrae, a propor projetos e melhorias. A liderança sempre foi muito aberta a ouvir a opinião dos estagiários e a dar voz para a gente. Nesse projeto, desde o primeiro momento em que vi aquela necessidade, propus a ideia e toda a equipe abraçou. Eu liderei o projeto, criei a plataforma, apresentei aos colaboradores e também ao Sebrae Bahia, que apoiou”, relata.
Para ele, ver a solução incorporada à rotina da unidade também ampliou sua percepção sobre o próprio papel dentro da organização. “Foi um desafio construir tudo isso, mas ver os colaboradores utilizando aquilo que eu desenvolvi foi de um orgulho e de um prazer imenso, porque percebi que o meu trabalho estava tendo resultado e impacto sobre a equipe e sobre o Sebrae Bahia. Esse reconhecimento mostra que essa construção teve grande valor para a minha formação profissional e também para o meu lado pessoal, porque me motiva a buscar sempre inovar e melhorar”, afirma.
O projeto está atualmente voltado à Unidade Regional de Juazeiro, mas Gabriel considera que a proposta pode ser adaptada para outras organizações. “Ele não é especificamente para o Sebrae. Tem potencial para ir para outras empresas e instituições, porque pode ensinar Libras a qualquer pessoa”, observa.
Talento precisa de reconhecimento – O desenvolvimento do Mãos Empreendedoras também reflete, segundo o gestor de Gabriel, Carlos Cointeiro, uma política de valorização dos jovens e de abertura para que estagiários possam contribuir com ideias e projetos dentro da instituição.
“A gente tem um trabalho de valorização dos jovens. O ingresso deles na instituição, através do estágio, é um processo de formação, orientação e direcionamento para que possamos extrair todo aquele talento que eles já trazem, seja por natureza ou pelo que desenvolvem. No caso de Gabriel, desenvolver uma iniciativa que ensina Libras aos colaboradores para atender melhor o público que chega à agência foi fantástico”, afirma.
Com 32 anos de carreira, Cointeiro também iniciou sua trajetória profissional como estagiário pelo IEL. Para ele, o prêmio representa um marco na formação do estudante. “Gabriel tem um grande potencial para crescer, para ser um profissional de futuro e, quem sabe, um grande empreendedor. Eu sei o que é ser estagiário porque, dos meus 32 anos de carreira, dois deles, no início da minha vida profissional, foram como estagiário pelo IEL. É fantástico ver um jovem talentoso com um futuro brilhante pela frente. O prêmio traz isso à tona e fortalece o direcionamento dele na vida”, destaca.
Soluções que transformam a rotina – A capacidade dos estagiários de observar problemas da rotina e propor novas soluções também levou outro estudante ao primeiro lugar no Prêmio IEL. O estagiário de Engenharia Civil Caique Angel Collazo Santana, do Shopping Barra, venceu a modalidade Estagiário Inovador – Médias após desenvolver um dispositivo de aço para combater o furto recorrente de canoplas dos sanitários do empreendimento.
As canoplas são as peças externas acionadas para disparar a descarga. Os furtos provocavam gastos com reposição, abertura de ordens de serviço, deslocamento de equipes de manutenção e demandas para os setores de compras e almoxarifado.
Segundo Luiza Motta, assistente de RH do Shopping Barra, a solução partiu do próprio estudante. “A gente precisava entender como conseguiria intervir nessa situação. Foi aí que o nosso estagiário entrou em ação, a partir de uma iniciativa e de uma ideia dele. Ele criou um dispositivo para evitar esse furto. Para a gente, isso foi muito inovador e também revolucionário, porque é um dispositivo relativamente simples, feito em aço, que realmente evita o furto e trouxe uma resposta muito imediata”, conta.
A inovação também gerou resultados em diferentes áreas da empresa. “Tivemos redução de gastos, de tempo de serviço e também das solicitações de serviço. Compras e almoxarifado também deixaram de precisar se preocupar com essa demanda”, afirma Luiza.
Para ela, a experiência evidencia a importância de criar espaço para que o estagiário participe de maneira ativa dos processos da empresa. “Ele teve completa autonomia em todo o processo. Tanto que a iniciativa foi dele. Ele chegou para o supervisor de estágio e sugeriu a ideia. O supervisor é uma pessoa que gosta de ver os estagiários tendo iniciativa, sendo executores e proativos. Ele teve todo o apoio para desenvolver o projeto e hoje estamos colhendo frutos muito positivos”, acrescenta.
Além do reconhecimento de Caique como Estagiário Inovador – Médias, o Shopping Barra também conquistou o primeiro lugar na categoria IEL Estágio – Empresa Inovadora – Médias.
Prêmio reconhece 38 vencedores na Bahia – Gabriel e Caique estão entre os 38 vencedores da etapa Bahia do Prêmio IEL 2026, realizada no dia 10 de setembro, na sede da Federação das Indústrias do Estado da Bahia (FIEB), em Salvador. Nesta 23ª edição, a Bahia liderou o ranking nacional de inscrições, com 132 projetos entre os 1.093 registrados em todo o país.
Promovida pelo Instituto Euvaldo Lodi (IEL Bahia), a premiação reconhece estudantes, bolsistas, empresas e instituições de ensino que desenvolvem iniciativas capazes de aproximar formação profissional, inovação e mercado de trabalho.
O Prêmio IEL 2026 contemplou as categorias IEL Estágio, com as modalidades Estagiário Inovador, Estágio Inovador e Educação Inovadora; Inova Talentos, com Artigo Inovador e Projeto Inovador; Destaque Aprendizagem e Sistema S.
Os vencedores das categorias IEL Estágio, Inova Talentos e Sistema S representarão a Bahia na etapa nacional, marcada para 2 de dezembro, em Curitiba (PR). Os vencedores nacionais das categorias de Estágio e Bolsas de Inovação também poderão ter seus projetos indicados ao GIMI Innovation Awards 2027.
Para Edneide Lima, superintendente do IEL Bahia, a permanência do entusiasmo em torno da premiação após mais de duas décadas mostra sua relevância para a formação de novos talentos. “O mais bonito é que, depois de 23 edições, parece que é o primeiro ano, porque a motivação continua enorme. Os projetos são maravilhosos e, a cada edição, superamos o número de inscrições e ampliamos a participação em relação aos anos anteriores. É uma alegria muito grande ver a relevância que o prêmio alcançou e o quanto ele, de fato, reconhece boas práticas”, afirma.
Criado na Bahia em 2004, o Prêmio IEL é uma iniciativa do IEL Bahia, instituição do Sistema Indústria responsável por programas de desenvolvimento profissional. Ao longo de mais de duas décadas, a premiação vem reconhecendo experiências que fortalecem a formação de talentos, estimulam a inovação e aproximam estudantes, instituições de ensino e empresas.












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