Capoeira que transforma: Batizado do Capoeiragem Mirim celebrou o Dia da Consciência Negra

O evento aconteceu no último sábado (19), em Camaçari, reunindo cerca de 100 crianças e adolescentes para batismo e troca de graduação | Créditos das fotos: Miro Newton

O primeiro contato de Vitor Adriano com a Capoeira foi aos 8 anos de idade, quando entrou para o Capoeiragem Mirim de Camaçari – projeto, patrocinado pela Braskem, que promove uma imersão em estudos e práticas da Capoeira de forma gratuita. Agora, aos 11, depois de completar 3 anos dentro do projeto, Vitor, que já foi batizado como Choque por “ser virado no 220”, segundo os amigos, mostra orgulhoso seu cordão amarelo e verde (juvenil 3º estágio), representando que não é mais iniciante na Capoeira. O menino sabe que o caminho é longo, mas quando perguntado, conta que o seu maior sonho é se tornar mestre e professor de Capoeira um dia.

Assim como Vitor, cerca de 100 crianças e adolescentes participantes do Capoeiragem Mirim estiveram reunidos no último sábado (19) na Pracinhas da Cultura, no PHOC 3, em Camaçari, para o evento de troca de graduações (quando o jovem capoeirista troca de corda ou cordão) e batizado (quando recebe sua primeira corda) realizado pelo Centro de Treinamento e Estudos da Capoeiragem (CTE Capoeiragem), sob a coordenação doempreendedor sócio-cultural-esportivo mestre Balão.

O encontro, que celebrou também o Dia da Consciência Negra, contou com presenças ilustres, como Piti Canella, assessora de gabinete da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia; Amando Lima, da área de Relações Institucionais da Braskem na Bahia; Luan Peres, Diretor da Polo Cultural; Edimar Santos, diretor da Pracinhas da Cultura e também alunos formados pela Escola CTE Capoeiragem. Dois desses alunos presentes são frutos do Capoeiragem Mirim (iniciado na comunidade do Bate Facho, na Boca do Rio, em 1994), como o contramestre Coruja, atual professor dos meninos no projeto, e professor Comprido, que deu um depoimento para as crianças e hoje mora em São Paulo.

Edimar Santos, Piti Canella, Luan Peres, Amando Lima e mestre Balão | Foto de Miro Newton

Mestre Balão, fundador do CTE Capoeiragem e criador do Capoeiragem Mirim, destacou o efeito multiplicador proporcionado pela Capoeira por oferecer novas perspectivas para que crianças e adolescentes sejam cidadãos com mais oportunidades. “A Capoeira é uma das principais ferramentas educacionais alternativas no Brasil. Através da ludicidade e da musicalidade a gente trabalha nos jovens essa consciência de pertencimento e identidade para que se tornem agentes atuantes e ativos no processo todo. Sem a Braskem, sem o Governo da Bahia e sem a Secretaria de Cultura de Camaçari, a gente não estaria fazendo esse projeto, então só tenho a agradecer”.

“O projeto consegue aliar educação à capoeira, que é uma expressão cultural muito característica da Bahia, de uma forma leve e eficaz”, comentou Magnólia Borges, gerente de Relações Institucionais da Braskem na Bahia.

Educação que transforma

Além das aulas de Capoeira, as crianças recebem aulas da equipe pedagógica, alimentação e assistência social através do projeto. Jaqueline Peixoto, que inscreveu seu filho Murilo, de 7 anos, no Capoeiragem Mirim no início do ano, conta que já percebeu uma melhora significativa. “Tenho alguns vídeos de quando ele começou, fazia o gingado só, não era muito bom. Na última aula, que juntou todo mundo, fiquei chocada com a evolução dele, foi um desenvolvimento muito bom, inclusive no comportamento, que melhorou bastante, no jeito de falar e também na escrita. No início, ele não estava lendo e hoje ele já lê. A Capoeira na vida dele foi uma realização porque ele cresceu muito e hoje, pra mim, ele é o melhor”, comenta a mãe emocionada ao ver o filho receber a primeira corda.

Já Edjane Firmina dos Santos viu seus filhos Marcos Vinicius Santos, de 15, e Railane Santos, de 12, colherem os primeiros frutos na Capoeira. Marcos, que recebeu o apelido de Fogo, e Railane, apelidada de Alegria, entraram no projeto em 2019 e receberam no evento a titulação de monitores juvenis, jovens que ajudam os mestres nas aulas.

“Eu tô sempre ajudando e incentivando. Não tenho o que dizer da Capoeira, é bom demais pra eles. Railane não sabia ler e agora tá lendo aos pouquinhos, Marcos só vivia doente e hoje tá sempre saudável, mais forte. Os dois querem seguir dentro da Capoeira, é educação pra vida toda”, conta a Edjane, que mudou o horário do trabalho para poder acompanhar os filhos nas aulas.

Durante o encontro, os jovens apresentaram a Bateria Sustentável Capoeiragem Mirim – uma bateria completa de instrumentos de Capoeira, como berimbaus, pandeiros, agogôs, reco-recos e caxixis, fabricados pelos participantes a partir de materiais recicláveis, utilizando resíduos sólidos como o plástico, metal e madeira. Essa ação fez parte da atividade pedagógica do projeto quando eles entenderam a importância desses resíduos e do consumo consciente para a vida deles. Ao final do evento, todos puderam levar seus instrumentos para casa.

Com a proposta de oferecer a Capoeira como ferramenta de educação e transformação social, o Capoeiragem Mirim já beneficiou milhares de crianças ao longo dos seus 28 anos de história. Além de Camaçari, o projeto acontece na comunidade do Bate Facho, na Boca do Rio; na comunidade do Paraíso Azul, no Costa Azul; e na Instituição Beneficente Conceição Macedo (IBCM), em Nazaré, atendendo uma média de 270 crianças e adolescentes de 4 a 16 anos, estudantes de escola pública.

A segunda edição do projeto Capoeiragem Mirim realizado em Camaçari tem patrocínio da Braskem e do Governo do Estado, por meio do Fazcultura, da Secretaria de Cultura e da Secretaria da Fazenda. A iniciativa conta ainda com o marketing cultural da Polo Cultural e apoio da Secretaria de Cultura de Camaçari.

Capoeira sem fronteiras

O Centro de Treinamento e Estudos da Capoeiragem, fundado por mestre Balão e mestre Papa, está presente em cinco estados – Bahia, São Paulo, Espírito Santo, Santa Catarina e Sergipe – e, além do Brasil, possui centros de treinamento e estudos na Alemanha, Bélgica, Suíça e Itália. Reunindo aulas para crianças, adolescentes e adultos, o programa engloba instrumentos e musicalidade, rodas mensais, pesquisas sobre as raízes culturais da Capoeira e folguedos populares, além de viagens em diversos eventos que promovem intercâmbio cultural pelo mundo. O eixo principal de trabalho de todos os núcleos do CTE Capoeiragem é a educação com base na cultura da Capoeira.

Gabriela Bandeira
Comunicativa, antenada e com atuação há mais de 16 anos na área de assessoria de comunicação, Gabriela Bandeira é jornalista formada pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), com curso de extensão na Universidade de Jornalismo de Santiago de Compostela (Espanha). Em 2019, reuniu toda a sua experiência e expertise em comunicação estratégica e conteúdos digitais, com atuação há mais de 12 anos no segmento de shopping center, e abriu a própria agência: a Comunicando Ideias. Filiada à Associação Brasileira de Agências de Comunicação (ABRACOM), possui alcance na Bahia e outros estados do Nordeste.