A casa como extensão do sentir: arquitetura e decoração também influenciam o bem-estar

Crédito das fotos: Gabriela Daltro

Arquiteta Mally Requião destaca como luz, proporção, memória, conforto e identidade transformam a relação emocional com os espaços

Há espaços que acolhem antes mesmo de qualquer palavra. Outros inquietam, cansam ou parecem não pertencer a quem os habita. A arquitetura, nesse sentido, ultrapassa a função de organizar ambientes: ela participa silenciosamente da experiência cotidiana, interfere na percepção de conforto e pode influenciar a forma como cada pessoa se relaciona com a própria casa.

A relação entre moradia e saúde é reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que associa melhores condições habitacionais à qualidade de vida e alerta para os impactos que ambientes inadequados podem exercer sobre a saúde física e mental. Em um cenário em que mais de 1 bilhão de pessoas vivem com alguma condição de saúde mental, segundo dados divulgados pela OMS em 2025, pensar os espaços a partir do bem-estar ganha ainda mais relevância.

Crédito das fotos: Gabriela Daltro

Para a arquiteta Mally Requião, um projeto começa muito antes da escolha de revestimentos, mobiliário ou objetos “Arquitetura é percepção. É entender como a luz entra, como o corpo circula, onde o olhar repousa e que sensação aquele espaço provoca. Antes de ser bonito, um ambiente precisa fazer sentido para quem vive nele”, afirma.

Estudos científicos vêm investigando a influência de fatores como iluminação, ruído, qualidade do ar, temperatura e contato com elementos naturais sobre o bem-estar. A luz, por exemplo, participa da regulação do relógio biológico e do ciclo entre sono e vigília, enquanto ambientes excessivamente ruidosos podem comprometer o descanso e aumentar a sensação de incômodo e estresse.

Crédito das fotos: Gabriela Daltro

Na prática, isso significa que escolhas arquitetônicas aparentemente simples podem modificar profundamente a experiência de uma casa. A entrada de luz natural, a ventilação, a fluidez da circulação, a acústica e a forma como os ambientes se conectam são elementos que colaboram para uma sensação maior de conforto e equilíbrio. “Nem sempre transformar um espaço significa acrescentar. Muitas vezes, o bem-estar aparece quando retiramos excessos, permitimos que a luz percorra melhor os ambientes e devolvemos respiro à casa. Existe uma arquitetura do silêncio, da pausa e da permanência”, explica Mally.

A presença de elementos naturais também vem ganhando espaço nas discussões sobre arquitetura e saúde. Plantas, materiais naturais, vistas externas e maior conexão entre interior e exterior têm sido associados, em diferentes estudos, a experiências mais positivas de bem-estar.

Crédito das fotos: Gabriela Daltro

Mas, para Mally, existe ainda uma dimensão menos objetiva e igualmente importante: a memória. “Uma casa não deve parecer um cenário. Ela precisa carregar camadas de vida. Um objeto herdado, uma obra de arte, uma fotografia, uma textura que desperta uma lembrança. É essa mistura entre arquitetura e memória que faz um espaço deixar de ser apenas bonito para se tornar verdadeiramente pertencente”, destaca.

Nesse contexto, decoração também assume outro significado. Mais do que seguir tendências, ela pode funcionar como expressão de identidade. Cores, objetos, obras de arte, mobiliário e texturas passam a ser escolhidos não apenas pelo valor estético, mas pela relação afetiva que estabelecem com quem habita aquele espaço .“Quando a casa representa quem somos, ela deixa de ser somente abrigo físico e passa a funcionar como uma espécie de abrigo emocional. Existe um conforto que não vem apenas do sofá, da temperatura ou da iluminação. Ele vem da sensação de reconhecimento”, acrescenta a arquiteta.

Crédito das fotos: Gabriela Daltro

A influência do ambiente, porém, não deve ser confundida com tratamento para transtornos mentais. Ansiedade, depressão e outras condições exigem acompanhamento profissional e envolvem fatores biológicos, psicológicos, sociais e ambientais. A arquitetura não substitui esse cuidado, mas pode contribuir para a construção de espaços mais acolhedores, funcionais e compatíveis com as necessidades de cada pessoa.

Para Mally Requião, essa talvez seja uma das dimensões mais sensíveis da arquitetura contemporânea. “Projetar uma casa é, de alguma forma, projetar experiências. É pensar nos momentos de encontro, de recolhimento, de descanso e de silêncio. Quando a arquitetura consegue acompanhar a vida de quem mora ali, o espaço deixa de ser apenas matéria e passa a fazer parte daquilo que sentimos”.