Um médico paciente

Infectologista Roberto Badaró recebe a Yacht Mag em casa, no laboratório em que trabalha e no seu consultório médico, para uma conversa tão agradável quanto a brisa do mar

Há um samba que diz que todo menino é um rei. Pois bem. Imagine se esse pequeno rei tem, desde sempre, os seus sentidos despertados para a vocação de compreender a fundo o que é um corpo vivo e ser mensageiro de cura. Pode-se, então, almejar que os trajes de realeza sejam postos de lado para dar lugar a um jaleco branquinho  – como manda o figurino de um médico. Assim aconteceu com o Roberto Badaró.

Quando criança, o capricorniano (agora, com 69 anos) já justificava a qualidade astrológica de ser um alguém pé no chão e dedicado aos seus objetivos. Ainda miúdo, aos nove anos, disse a si mesmo com ares de grandeza: “eu vou ser médico”. Hoje, é reconhecidamente uma referência internacional em infectologia. Uma história digna de ser escrita em um livro, não? Vejamos…

Made in Bahia, da safra de Salvador, Roberto Badaró já atuou como professor e pesquisador em instituições nacionais e internacionais, como a Harvard School of Public Health e a University of San Diego, Califórnia. PhD em Imunologia e Doenças Infecciosas, atualmente é pesquisador-chefe e professor titular do Instituto SENAI de Inovação em Saúde do Cimatec, professor da Universidade Federal da Bahia (Ufba) e diretor médico do Hospital Espanhol.

Roberto Badaró

A família Badaró tem origem libanesa. No Brasil, as raízes de sua árvore genealógica se ramificaram por Minas Gerais, São Paulo e Ilhéus. Geograficamente falando, os parentes mais próximos, no Sul da Bahia, foram importantes cafeicultores e cacauicultores. Mas a família nuclear do médico é a safra que deu seus frutos em Salvador. 

Irmão de seis, filho de uma professora e um administrador, o infectologista atribui à sua família o livre acesso a uma excelente educação, elemento transformador à sua história. Ao resgatar lembranças, Badaró exala a tranquilidade de quem, em vida, contribuiu para o bem-estar de significativa parcela da humanidade. E não estamos exagerando. Duvida?

Olhando rapidamente apenas para o período de um ano e meio de pandemia do coronavírus, o médico faz os cálculos e surpreende ao revelar a marca de 11 mil pacientes atendidos (sem contar os atendimentos à distância), o que representaria um terço do número de pessoas às quais ele consultou durante toda a carreira. 

“Foram de trinta a quarenta pacientes por dia. De domingo a domingo. Quem não tinha dinheiro para pagar, eu atendi mesmo assim”, relata o diretor médico do Hospital Espanhol, que acabou por se contaminar e experimentar o outro lado: o de paciente. 

Bravamente, Badaró sobreviveu a 70% de comprometimento pulmonar, causados pelo vírus da Covid-19, mas sofre, ainda hoje, de sarcopenia, causada por uma síndrome pós-coronavírus. Com a perda da força muscular, deixou de correr maratonas.

Ele conta que apesar de ter ficado cara a cara com a morte, não se desesperou hora nenhuma. Pelo contrário. “Não tive medo. Estava acreditando na ciência”, fundamenta o infectologista. E nem o coronavírus foi páreo para a mente ativa e produtiva do professor. 

A serenidade e a confiança na equipe médica do hospital que gere deram a ele muita energia para se recuperar, e também para escrever dois longos projetos de pesquisa e o esboço de um livro sobre sua experiência como paciente de Covid.

Sem sombra de vaidade, Badaró ressalva que poderia ter ido para qualquer hospital do mundo. “Ofereceram avião”, detalha ele. Mas pensou consigo mesmo que, se tivesse de se internar, ficaria no Espanhol. “Se não é bom para mim, não é para ninguém”, sentencia o médico.

Aliás, para o dr. Badaró, o exercício da empatia parece ser uma ferramenta tão essencial quanto um estetoscópio. Ele delineia que a prática médica tem bastante a ver com associar para si o sofrimento do paciente e, assim, prover os meios para ele se recuperar. “A medicina é um sacerdócio”, metaforiza.

O primeiro paciente de covid

Talvez tenha sido ele o primeiro médico em Salvador a tomar conhecimento da chegada do então novo vírus à cidade. Após o Carnaval de 2020, atendeu um paciente francês com muita febre. “Eu errei, achei que era influenza”, confessa Badaró. 

Apesar do equívoco no diagnóstico, o infectologista já havia recomendado às autoridades de saúde do Estado que a folia momesca fosse suspensa, em um primeiro esforço para conter a disseminação da doença. “Essa doença está vindo. O ideal seria não ter o Carnaval”, rememora.  Mas dessa vez não foi considerado e a festa de rua aconteceu. 

Para Badaró, a comunicação rápida entre os povos espalhou o vírus, que é tido como de alta transmissibilidade, afinal, quem é infectado não necessariamente morre ou sofre os sintomas. “80% de quem pega é assintomático”, estima o médico. 

Para o enfermo francês, receitou uma medicação apropriada à gripe e o rapaz voltou para o seu país de origem. Passadas algumas semanas, em março, o paciente fez contato novamente, por e-mail, atualizando-o de que, na verdade, a “gripezinha” era Covid-19. 

Depois desse dia, diante da novidade, todos em seu consultório passaram rigorosamente a usar máscara de proteção facial e seguir protocolos rígidos de biossegurança. 

Mas os cuidados, sabia ele, não deveriam ficar restritos. Badaró foi pessoalmente falar com o governador para aconselhá-lo novamente quanto ao distanciamento social e sugeriu a adoção do lockdown, que vivemos nos meses seguintes. Tanto é que a Bahia foi um dos primeiros estados brasileiros a incentivar as medidas sanitárias. 

A luz vermelha de alerta para o que estaria por vir se acendeu após uma viagem à Califórnia. Era janeiro de 2020, quando ele esteve na Universidade de San Diego, e teve noção de que a superinfecção não se limitaria às fronteiras de Wuhan, na China. Lá, junto a outros renomados cientistas, Badaró foi professor titular e mantém uma relação de pesquisa e colaboração. 

Foi ele mesmo, também, quem fez a recomendação para o governo de reabrir o Hospital Espanhol como um centro de tratamento do coronavírus. O hospital, que estava fechado há sete anos, foi o primeiro de campanha do Estado.

Meses depois, sentiríamos na pele o que o especialista classifica como o período mais crítico da pandemia, entre julho e agosto de 2020. Foi quando se viu a letalidade, significativamente maior, afetar indivíduos com mais de 50 anos. 

Em 2021, o cenário é outro. Com a aplicação massiva dos imunizantes na população, essa mortandade caiu dramaticamente para essa faixa etária. Agora as variantes têm no alvo pessoas mais jovens, abaixo de 40 anos, observa o cientista. 

“Antes, 60% das pessoas pegavam. Hoje, menos de 10%. Porque aprendemos a usar máscara, fazer distanciamento e melhoramos a capacidade de higienização”, acrescenta.  “Há evidências de que a pandemia está decaindo. Mas há a iminência, sempre, de surtos esporádicos”, ele pondera. Por esta razão, Badaró não vê problemas sanitários em retomarmos a vida aos poucos, evitando-se aglomerações

COORDENADA

O amigo Elsimar

Em qualquer amizade que se preze, a admiração e o respeito são o sal da relação. Entre Roberto Badaró e Elsimar Coutinho não poderia ser diferente. “Elsimar é um ídolo”, considera o infectologista, que esteve incumbido da missão honrosa de cuidar do amigo, que havia contraído o coronavírus, em alguns dos seus últimos dias de vida, enquanto ainda estava fazendo seu tratamento em casa.

Com carinho, Badaró se lembra de um de seus últimos diálogos com Coutinho, a quem chamava carinhosamente de professor. Estavam os dois conversando, na varanda de Elsimar, quando o ginecologista vaticinou: “Essa pandemia vai mudar o mundo. É um novo tipo de controle de natalidade”. Infelizmente, a doença evoluiu a ponto da saturação de oxigênio atingir os 70% críticos e veio a necessidade de internação em um hospital. A princípio, Elsimar foi levado para o Hospital Aliança, aqui em Salvador, onde Badaró poderia assisti-lo mais de perto. Mas, por decisão da família Coutinho, o médico acabou sendo transferido para o Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, onde, dias mais tarde, acabou falecendo em razão de uma hemorragia cerebral, não em decorrência do coronavírus, segundo Badaró.

Vacina com dendê

Imunizante desenvolvido em solo baiano desponta no horizonte como nova esperança contra a Covid-19

Por mais que a Revolta da Vacina tenha formado motim há mais de um século, existe, em pleno 2021, quem fuja da agulha. Não por ter sobrevivido ao infortúnio da erradicada varíola, claro. O principal questionamento dos revoltosos contemporâneos (ou, como alguns preferem chamá-los, “sommeliers de vacina”) é: por que e como as substâncias ficaram prontas tão logo? 

A resposta dada pelo infectologista Roberto Badaró, apesar de simples, não é simplória. Envolve geneticismo e pesquisa de ponta. O cientista justifica que a tecnologia de manipulação gênica atualmente atingiu o seu ápice em modernização.  “Hoje podemos fazer o que quiser”, ilustra o pesquisador. “Por isso a vacina foi rápida, e é segura. Ao todo, mais de 130 vacinas foram desenvolvidas. Só seis delas atingiram o patamar de serem testadas em humanos”, acrescenta.

Mas, com a mutação do coronavírus e o surgimento de novas variantes, além da recomendação da aplicação da dose de reforço, Badaró avisou à Yacht Mag que uma vacina desenvolvida em solo baiano desponta no horizonte como nova esperança.

Os trabalhos vêm sendo realizados no laboratório do Senai CIMATEC, onde o pesquisador atua também como docente titular. Trata-se de uma parceria com a HDT Bio Corp, empresa estadunidense de biotecnologia sem fins lucrativos, e deve entrar na fase de testes nas próximas semanas. Localizado na Avenida Orlando Gomes, em Piatã, o CIMATEC é um dos pólos tecnológicos de referência no país, com padrão internacional.

“Não é totalmente baiana [a vacina], mas tem um pouco de dendê”, ele brinca. Batizada preliminarmente como RNA MCTI CIMATEC HDT, a imunizante será a primeira com a tecnologia replicon de RNA a ter essa fase de testes realizada no Brasil. Porque o baiano não nasce, estreia, não é mesmo?

O professor Badaró nos simplifica as coisas: o replicon de RNA, por ter a capacidade de se auto amplificar e ser reconhecido pelo corpo humano como um RNA mensageiro, induz o organismo a produzir respostas contra o vírus (anticorpos). A previsão é de que esteja disponível em um ano.

A alma nobre de Roberto

Nessa toada, em um momento custoso para a saúde mental como este em que (sobre)vivemos, é de cutucarmos a nós próprios com a seguinte indagação: como uma pessoa tão influente e respeitada, que carrega bastante responsabilidade, mantém o equilíbrio e a leveza?

Sem pestanejar, o médico não esconde o jogo e satisfaz a nossa curiosidade: a leitura é a sua válvula de escape, a espiritualidade se faz necessária e o mar é o seu outro lar.

“O médico que não tem espiritualidade deve sofrer muito, ter dificuldade em ficar tranquilo e não se sentir derrotado. Quem derrota o médico é a morte. Se ele não pode curar o doente, ele perdeu. Mas, se ele tem espiritualidade, sabe que [a morte] é uma transposição e não perde mais”, elucida Badaró.

Quanto aos livros, a relação é um pouquinho menos abstrata e mais material. De um leitor voraz, nasce um escritor. Em vias de se aposentar, Roberto Badaró tem, em sua manga, não cartas, mas sete livros escritos por ele, a serem publicados. 

A inspiração deve vir, também, da contemplação do azul sem fim da Baía de Todos-os-Santos. Ele nutre uma conexão com o mar que quase o faz tocar o céu. “Nada mais divino que o mar”, poetiza ele, com a alma sensível do Capricórnio.

Gabriela Bandeira
Comunicativa, antenada e com atuação há mais de 16 anos na área de assessoria de comunicação, Gabriela Bandeira é jornalista formada pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), com curso de extensão na Universidade de Jornalismo de Santiago de Compostela (Espanha). Em 2019, reuniu toda a sua experiência e expertise em comunicação estratégica e conteúdos digitais, com atuação há mais de 12 anos no segmento de shopping center, e abriu a própria agência: a Comunicando Ideias. Filiada à Associação Brasileira de Agências de Comunicação (ABRACOM), possui alcance na Bahia e outros estados do Nordeste.